sexta-feira, 24 de junho de 2016

capes aprova mestrado profissional de sociologia em rede nacional

O Mestrado Profissional de Sociologia em Rede Nacional (ProfSocio) foi aprovado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) neste mês de junho. O objetivo do curso é propiciar um espaço de formação continuada para professores de Sociologia que atuam na Educação Básica, e também às pessoas que desejam atuar nesta área.
O início do ProfSocio está previsto para o  primeiro semestre de 2017. Serão ofertadas inicialmente 175 vagas distribuídas entre as nove instituições associadas à rede. O processo seletivo nacional ocorrerá no segundo semestre de 2016. Poderão concorrer às vagas professores da rede pública da Educação Básica que ministram aulas de Sociologia e portadores de diploma de licenciatura reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC).
O ProfSocio é o resultado da articulação entre a Sociedade Brasileira de  Sociologia (SBS), a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e a Universidade Estadual de Londrina (UEL), que reuniram outras sete instituições envolvidas nacionalmente com estudos e pesquisas acerca da Sociologia na Educação Básica, e comprometidas com a formação continuada de professores na área. São elas:  Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Federal do Ceará (UFC),  Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Estadual Paulista (UNESP – Campus Marília), Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e Universidade Federal do Vale do Acaraú (UVA). 
A realização do ProfSocio visa contribuir para o atendimento da meta 16 do Plano Nacional de Educação (PNE), que prevê a formação de 50% dos docentes da Educação Básica em nível de pós-graduação até 2024. O curso será ofertado na modalidade semipresencial, isto é, com aulas presenciais e a distância, somando 450 horas distribuídas em três semestres.
A Fundaj é a instituição responsável pela organização do ProfSocio no âmbito da Universidade Aberta do Brasil (UAB). A partir do funcionamento do curso, novas instituições poderão associar-se à rede por meio de edital de adesão. Para o segundo ano do mestrado profissional, está prevista a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e Colégio Pedro II.
Mais informações a respeito do ProfSocio podem ser solicitadas pelo E-mail: profsocio@fundaj.gov.br.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

O desmanche da democracia que queríamos para o Brasil

Paulo Henrique Martins (pahem@terra.com.br)
As incertezas políticas do Brasil são, igualmente, aquelas de todos países latino-americanos que investiram nos processos de democratização de suas sociedades nas últimas décadas, tendo como pano de fundo a intenção de não mais retornar aos períodos ditatoriais. O caso brasileiro é relevante e causa estupor na medida em que ele coloca de forma flagrante os limites da democracia que queríamos, por um lado, e as perspectivas tenebrosas de um processo de democracia oligárquica voltado para o favorecimento das elites econômico-financeiras, políticas e burocráticas, por outro.
A democracia que queríamos, nós da esquerda, era, sobretudo, uma democracia participativa na qual a representação expressasse os anseios da maioria da população com relação a um sistema de poder descentralizado e transparente, favorecendo a inclusão social, a igualdade de acesso aos bens coletivos e a liberdade de expressão. Mas o regime democrático que conhecemos e que foi construído desde 1984, quando se realizaram pela primeira vez eleições livres no país, marcando o fim do período ditatorial, não responde a estas características ambicionadas pela esquerda democrática. Aos poucos, foi se restabelecendo os velhos mecanismos da democracia oligárquica pela qual os direitos de representação das elites não estão articulados com os direitos de participação da população em geral, sobretudo as parcelas mais desassistidas, no que diz respeito as decisões relativas ao exercício pleno da cidadania. Assim, há em curso o desmanche de uma democracia que queríamos que fosse ampla e inclusiva.
Na democracia oligárquica a representação se organiza a partir de financiamentos privados gerados por riquezas pessoais, pelo poder de terceiros detentores de riquezas patrimoniais ou financeiras que apoiam “seus” candidatos ou por corporações religiosas, como as igrejas pentecostais, que votam cegamente em seus líderes. Estes procedimentos de elitização do regime democrático foram legalizados no Brasil a partir de duas estratégias. Uma delas tem a ver com os dispositivos de recrutamento, seleção e formalização das candidaturas políticas desejosas de concorrer nas eleições parlamentares a partir de listas organizadas pelos partidos e sem sintonia com as demandas concretas e localizadas das comunidades urbanas e rurais. A outra iniciativa se revela pelos procedimentos de elitização desenhados a partir do que se chama de “governo de coalizão”, no qual o exercício da presidência da república e a organização do executivo dependem diretamente das negociações e barganhas envolvendo parlamentares e governo no que diz respeito a distribuições de cargos públicos como ministérios e diretorias de empresas estatais. Tais procedimentos implicam, também, decisões pouco transparentes relativas à distribuição de recursos públicos para investimentos, políticas públicas e manutenção do aparato estatal.
Num contexto político de forte presença popular do presidente da república, como foi o caso de Lula, as pressões das elites políticas conservadoras eram relativamente neutralizadas pelos receios dos parlamentares de perderem o apoio das bases eleitorais e, igualmente, os financiadores de campanha, Isto fortalecia, por conseguinte, a independência do executivo e seu poder de negociação. Diferentemente, nos casos de presidentes da república pouco carismáticos como foram os casos de Fernando Henrique Cardoso e de Dilma Rousseff, a governança permaneceu como uma experiência instável e incerta. Como a elite política conservadora não se sentia ameaçada nas suas práticas eleitorais mesquinhas, as pressões e barganhas pessoais e corporativas dos congressistas sobre o poder executivo eram mais intensas, levando ao impasse do “presidencialismo de coalização” que vemos hoje. Como resultado, os interesses voltados para demandas partidárias, paroquiais e corporativas eliminaram quaisquer perspectivas de organização de ações de planejamento governamental de médio e longo prazo, favorecendo as negociações interpessoais em formato de bazar. A anulação de perspectivas de planejamento de médio e longo prazo voltada para responder as necessidades de promoção da sociedade nacional paralisou o governo Dilma, aumentando a ambição das corporações econômicas e políticas de controlar o  aparelho estatal e assaltar os cofres públicos. A instabilidade política aumentou em nível impensável no ano de 2016 comprometendo as perspectivas de continuidade das conquistas democráticas obtidas ao longo das décadas de oitenta até o momento presente.
A efetivação de um programa de democratização efetivo da vida nacional exigiria, ao contrário, a renúncia dos interesses de alguns em benefício de ações voltadas para proteger a sociedade nacional como um todo. Esta é a condição para se implantar ações mais duradouras e voltadas para geração de emprego e renda, de políticas públicas necessárias à promoção da cidadania igualitária como aquelas de saúde e educação e de melhoria dos serviços de infraestrutura como estradas e saneamento.
A chegada do Partido dos Trabalhadores e de Lula ao poder não foi suficiente para reverter o quadro de hegemonia da democracia oligárquica. Ao contrário. Para gerenciar o poder estatal os dirigentes petistas tiveram que ceder espaços políticos importantes às elites conservadoras e realizar barganhas por cargos e por recursos públicos que terminaram contaminando o programa democrático do PT. Isto levou muitos dirigentes a se afastarem dos ideais éticos inicialmente propugnados pela esquerda democrática simpatizante das lutas dos sindicalistas, sobretudo aqueles da região do ABC paulista onde estão instaladas grandes montadoras de veículos. Com o governo Dilma o processo de descaracterização ideológica e política do PT se agravou, contaminando os programas de ação das esquerdas democráticas que passaram a depender crescentemente do prestígio de Lula para enfrentar a “direitização” do sistema político.
A degradação progressiva das perspectivas de materialização da utopia da democracia participativa ampliada que queríamos resulta deste conjunto de fatores que demarcam o crescimento dos interesses conservadores e mercadológicos, por um lado, e a desvalorização da participação popular e social nas decisões políticas voltadas para atender as demandas das maiorias, sobretudo as mais fragilizadas, por outro. Mas a degradação da utopia democrática não se fez apenas no terreno da política partidária e do assalto ao tesouro estatal. O crescimento do utilitarismo materialista foi também alcançado por ampla campanha ideológica guiada pela mídia conservadora e voltada para estimular o consumo de massa que era entendido como fundamental para apoiar a expansão do setor industrial que também recebeu generosos subsídios mediante isenções fiscais. O resultado destas políticas assistencialistas foi a crescente  despolitização dos setores populares que ficaram hipnotizados pelo consumo e despreparados para lutar pelas sementes da vida comunitária e associativa.
Os dirigentes petistas, incluindo o próprio Lula, têm suas parcelas de responsabilidade na alienação política crescente dos segmentos populares por não entenderem que a gestão de uma sociedade complexa é um desafio muito maior que aquele do horizonte sindical. Assim, o manejo de políticas públicas, como o “bolsa-família”, foi feito não para incrementar o exercício da participação democrática local e municipal por parte das comunidades e grupos familiares, mas para incentivar o consumo e proteger as indústrias de bens de consumo duráveis e semi-duráveis. Certamente, preocupados em fortalecer suas orientações sindicais e aumentar o poder das barganhas salariais, os petistas acreditaram que o aumento do consumo e da renda básica dos mais desassistidos seria o suficiente para assegurar o apoio que precisava a esquerda no poder para manter ampla base eleitoral estabilizando a governabilidade. Ledo engano do sindicalismo de esquerda. O resultado é que a sociedade brasileira está pagando neste momento o preço da apatia social e do desmonte dos mecanismos da democracia participativa que queríamos. A esquerda no poder não entendeu que a construção da cidadania democrática constitui um processo complexo que exige em primeiro lugar o estímulo a uma cultura de solidariedades morais e afetivas que orientem como as comunidades, as famílias e os indivíduos devem decidir coletivamente sobre o que fazer e como fazer para organizar a sobrevivência de todos na vida cotidiana.
O mais grave é que embora o impeachment temporário de Dilma tenha produzido várias mobilizações em defesa da presidente, estas não indicam ainda apontar para um programa consistente para enfrentar o poder conservador e corrupto e sustentar a reconstrução nacional. As duas forças sociais mais importantes na mobilização de uma reação da esquerda organizada não apresentam ainda uma plataforma política conjugada. Por um lado, há de se destacar haver em curso crescimento da mobilização de entidades ligadas ao PT, agora na oposição, como a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o MST (Movimento dos Sem-Terra). Mas tais reações continuam mais voltadas para a defesa de suas bandeiras sindicalistas e partidárias tradicionais que apresentam forte verticalidade. Por outro, vemos as mobilizações de rua, envolvendo juventude, intelectuais universitários e outros setores das classes médias que se articulam em torno da denúncia do golpe e da contestação do governo provisório de Michel Temer na esperança de anulação do processo de impeachment. Mas ainda não se observa nestas reações as sementes de um programa de restauração politica mais realista e adequado para o enfrentamento do conservadorismo. Dependendo do desenrolar dos acontecimentos, estas mobilizações espontâneas das ruas podem vir a se fusionar numa alternativa política e ideológica mais consistente, ancorando os fundamentos de uma nova aliança política que inclui o sindicalismo mas que possa vir a ter amplitude utópica bem mais ampla.
O fato é que tais reações de sindicatos, movimentos organizados e mobilizações espontâneas são ainda insuficientes para criar um fato político novo capaz de reverter a tendência de retrocesso das conquistas democráticas. A meta de restauração do poder da esquerda via anulação do impedimento e retorno da Dilma não é impossível mas apresenta grandes dificuldades devido a problemas que devem ser sublinhados. Em primeiro lugar, é necessário salientar os altos níveis de rejeição política que ela conheceu progressivamente desde sua reeleição. Segundo dados de pesquisa nacional realizada pela CUT/Vox Populis no mês de abril último a avaliação de Dilma como ruim/péssimo chegava a 59% enquanto a de Temer subia para 62%. Certamente, a fragilidade do governo provisório de Temer tenha contribuído para aumentar sua rejeição e diminuir a de Dilma, mas não parece que esta avaliação ainda tenha mudado substancialmente na medida em que a crise econômica vem se agravando e seu governo tem responsabilidades por esta crise. Assim, em segundo lugar é de se salientar os péssimos números da gestão econômica de Dilma: o PIB (Produto Interno Bruto) caiu 6% entre 2014 e 2015 e continua caindo, a dívida pública representava 57% do PIB no final de 2014 ameaça chegar a 74% em 2016; o desemprego já atinge 11 milhões de brasileiros, e a dívida do tesouro nacional com o sistema financeiro é impagável caso não haja uma negociação séria com os bancos.
Em terceiro lugar, do ponto de vista do apoio do PT a Dilma há dificuldades relevantes a serem lembradas. Há resistências fortes dentro do PT para incorporar ex-ministros de Dilma como Ricardo Bezoini e Jaques Wagner no diretório nacional do partido e há, mesmo, um grupo de deputados petistas que analisam a possibilidade de fundação de outro partido político. Em quarto lugar, deve ser lembrado o perfil psicológico de Dilma, uma mulher honesta e sincera que tem dificuldades de lidar com personalidades políticas ambíguas e egoístas. Assim, diferentemente de Lula que sabia manejar com muita desenvoltura as negociações e barganhas com as elites, Dilma sempre demonstrou resistências para essas negociações “por baixo do pano”. Embora elogiando a impecabilidade moral de Dilma o fato é que se verificou uma deterioração importante entre os poderes executivo e legislativo, contribuindo para gerar a ingovernabilidade política que vemos no momento presente.
É possível afirmar, logo, que há uma ampla perplexidade social e popular perante um quadro de impasse político e de falta de horizontes estáveis a curto e médio prazo. Esta perplexidade ainda não foi canalizada para uma reação política mais consistente na medida em que a bandeira de “fora” Temer e “volta” Dilma não revela constituir um apelo popular amplo e vigoroso pelo receio compreensível que a volta ao passado signifique agravamento da ingovernabilidade. Esta perplexidade toma conta tanto dos que estão do lado de Dilma como de muitos que apoiaram seu impeachment mas que, agora, estão assustados com os rumos conservadores e incertos do presidente interino, Michel Temer, que era o vice-presidente de Dilma e que assumiu o cargo com o afastamento da mesma.
Há, pois, um descompasso entre a intensidade do mal-estar emocional vivenciado por grande parte dos brasileiros e as limitadas reações democráticas oferecidas pelos sindicatos, partidos de esquerda e mobilizações de rua. Além do mais, como foi lembrado, as próprias mobilizações de rua não parecem apontar para a organização de uma força anti-hegemônica poderosa. Talvez, pela ausência – ainda – de uma frente parlamentar de esquerda articulada com os movimentos sociais e sindicais, observa-se que a energia social que vem sendo empregada em favor da resistência ao desmanche da democracia que queríamos ainda são muito limitadas. As manifestações de ruas e de intelectuais contra o golpe são importantes mas não são suficientes para se criar um clima de resistência mais amplo que mobilize os setores populares e que ancore o trabalho de construção de um novo projeto democrático. A própria ideia de golpe que seria explicada pelo fato de Dilma ser afastada sem crime de responsabilidade comprovado não é unanimidade quando se conversa com os intelectuais mais comprometidos com a causa democrática. Há aqueles que dizem, inclusive, não ter havido um golpe (visto que a legalidade constitucional se mantém), mas apenas uma farsa gerada pela manipulação midiática e jurídica do sistema político pelas forças conservadoras. A tese da farsa é interessante pois coloca o problema político do afastamento da presidente da república não apenas como uma violência jurídica, trazendo o debate para o plano das lutas ideológicas e do falseamento estético da realidade política.
O fato é que independente das interpretações – como golpe ou como farsa -, as reações sindicais e partidárias e as mobilizações de ruas têm prazo de validade limitada, caso não se possa constituir pactos políticos e afetivos sólidos para ancorar a construção de programas de ação para o médio e o longo prazo e comprometidos com a democratização da sociedade nacional. Na ausência de pactos políticos e afetivos consistentes as lutas de resistência também se fragmentam e as energias sociais das mobilizações de rua ficam canalizadas pelos sentimentos de simpatia sinceros – mas politicamente controversos – com a figura de Dilma e pela sua dupla dor: da ex-guerrilheira que foi torturada pelo autoritarismo e pela mulher que se vê perseguida pelo machismo. Mas a simpatia com a figura da vítima não necessariamente libera a criatividade social para novos rumos democráticos. Pode apenas reforçar o poder do algoz e o temor dos vitimizados.
A saída deste imbróglio político e emocional passa necessariamente, então, pelas perspectivas de visualização de prioridades políticas a serem defendidas nos horizontes da vida social. Neste nível de especulação intelectual, me parece que haveria três objetivos a serem perseguidos com tenacidade pelo novo pacto de esquerda por apresentarem potencial de canalizar a energia social dispersa. O primeiro deles, é a defesa incondicional da Constituição de 1988 que assegurou avanços importantes para a reforma do aparelho estatal, para a implantação  de políticas públicas inovadoras e voltadas na promoção da cidadania na saúde e na educação e para homologar novos direitos sociais e culturais. Foi a partir desta Carta Constitucional que se organizaram reformas importantes no funcionamento do Estado, gerando novas concepções de políticas públicas e ações descentralizadoras da administração estatal. A partir desta nova Constituição as lutas por direitos sociais, civis, cívicos e ambientais também se ampliaram gerando reconhecimento dos direitos de minorias e de diversidades. Programas ousados como o SUS (Sistema Único de Saúde) – garantindo o acesso universal dos cidadãos a saúde pública e também o atendimento descentralizado das ações de cuidado – apenas têm sentido no interior dos preceitos desta nova Constituição de 1988. Por isso, parece-nos que as mobilizações políticas em favor da preservação e integridade destes avanços jurídicos deve ser objeto de uma aliança ampla das forças democráticas. Sem ela se desfazem grande parte das conquistas sociais e políticas que foram obtidas e que sustentam as lutas atuais por aumento da participação social e política.
O segundo objetivo tem a ver com a implementação de uma ampla reforma política que promova a reorganização do sistema partidário e dos processos eleitorais de modo a restaurar o valor da participação democrática em nível das comunidades e do poder local. Há que se adotar medidas para repolitizar as massas assalariadas e aquelas vulneráveis de modo que possam participar de modo mais ativo e responsável na organização dos sistemas políticos e partidários nos planos local, estadual e nacional. Neste plano, as mobilizações em favor de eleições gerais para reorganização do sistema político e partidário devem ser consideradas seriamente pois somente assim é possível se liberar espaços de atuação para novas lideranças populares, saneando o sistema partidário e legitimando a reforma gerencial do aparelho estatal. Na verdade, é importante sublinhar, isto é tudo que as elites conservadoras que manipulam o voto não querem, na medida em que eleitores mais conscientes de seus votos tendem a definir outras prioridades na hora das eleições. Por isso, esta reforma política deve ser objeto de um amplo debate e mobilização coletiva para poder obrigar as forças conservadoras a retrocederem e aceitarem os projetos de revisão das leis e procedimentos que precisam passar pelo parlamento.
O terceiro objetivo tem a ver com a reorganização dos modelos de desenvolvimento nacional de modo a favorecer o surgimento de economias plurais e diversificadas que minimizem os efeitos do mercado capitalista sobre a atividade econômica da sociedade, retirando as forças dos grandes monopólios e do agronegócio e estimulando a competitividade econômica horizontal e os pequenos negócios. Na reorganização destes modelos é importante se repensar o papel das políticas públicas visto a significativa presença da economia redistributivista estatal na organização da vida econômica e social que, no Brasil, alcança mais de 50% do PIB.. Há que se repensar igualmente as relações entre sistema financeiro e econômico e função social do desenvolvimento de modo a se reorganizar adequadamente os usos das riquezas coletivas como terra, água e investimentos públicos assim como sanear a dívida do estado com o setor financeiro que atualmente é inviável. O fato é que o modelo neodesenvolvimentista adotado pelo PT não cumpriu seu compromisso de redistribuir riquezas e diversificar as atividades econômicas em beneficio da equalização dos direitos de acesso da maioria aos recursos coletivos. Ao contrário, as alianças feitas pelos dirigentes do PT com as forças conservadoras trouxeram muitos benefícios ao sistema financeiro, a grandes empreiteiras e montadoras de automóveis e ao agronegócio e, por conseguinte, poucos benefícios para melhoria efetiva da cidadania dos mais desfavorecidos. A construção de uma utopia pós-desenvolvimentista que valorize o bem comum é, pois, tarefa fundamental e urgente da reação democrática.
As condições gerais para começar esta ampla mobilização voltada para um programa de reconstrução da sociedade nacional e da implantação da democracia ampliada a curto, médio e longo prazo estão dadas. O governo Temer tem uma base de sustentação fragmentada no congresso nacional  que limita suas possibilidades de tomar medidas econômicas e fiscais fortes para enfrentar a crise econômica e a perda de confiança do setor produtivo. As fragilidades do governo Temer são realçadas pelo fato de que vários de seus ministros estão envolvidos na operação “Lava-Jato” e sob a mira da justiça com envolvimentos diretos em escândalos de corrupção envolvendo a empresa brasileira de petróleo (Petrobrás) e com operações de lavagem de dinheiro “sujo”. Por outro lado, Temer sabe que não pode sobreviver politicamente apenas orientado pelos interesses das elites, devendo obrigatoriamente escutar os sindicatos e as ruas para poder se manter no cargo. Sua decisão de recriar o Ministério da Cultura que tinha sido absorvido pelo Ministério de Educação após ampla reação de artistas e simpatizantes, demonstra o que estamos dizendo.
As incertezas do governo de Michel Temer podem vir a ser, então, recursos importantes para a formação de um caldo de cultura adequado para que a energia social mobilizada pelas ruas na resistência ao golpe (ou na resistência a farsa) no curto prazo, possa ser canalizada para objetivos pragmaticamente mais consistentes de médio e longo prazo e voltados para a reorganização dos processos democráticos. E tais objetivos, como dissemos acima, não tem horizontes claros nos sonhos do passado mas apenas na capacidade da vontade democrática progressista de mirar os horizontes incertos do futuro da sociedade nacional. Neste ponto, nossa posição é que se o lema do “fora” Temer e do “volta” Dilma tem certa capacidade de mobilização das ruas, estas bandeiras são, porém, insuficientes para canalizar um amplo leque de solidariedades e de vontades políticas capazes de promover a resolução do impasse político e institucional atual.
As tarefas de pensar de forma realista o crescimento das forças democráticas exige ampla articulação das lideranças políticas de esquerda, de parlamentares, sindicalistas e intelectuais que se aglutinem na definição de um programa consistente e viável capaz de mobilizar a energia social para uma nova forma política e associativa mais solidária e justa. Infelizmente, ainda não estamos observando esta mobilização das forças sociais mais identificadas com os ideais da esquerda democrática com vistas a este programa mais amplo que inclua ações de curto, médio e longo prazo. A intensidade do contexto político manipulado pela mídia conservadora, a desorganização e prisão de lideranças petistas com perspectivas inclusive de penalização de Lula e familiares, as indefinições das forças de esquerda com relação a defesa de metas viáveis são elementos queinflamam as emoções coletivas e enfraquecem as perspectivas de uma reação política e ideológica anti-hegemônica mais consistente.
O caso brasileiro não é isolado devendo servir como alerta para todos os regimes democráticos da América Latina. Há que se fazer uma ampla revisão dos ideais da esquerda democrática que privilegiou historicamente o embate entre sociedade civil e estado (uma representação tipicamente liberal da democracia). A esquerda democrática não soube se preparar para enfrentar o neoliberalismo que traz o mercado como força decisiva para se repensar o que se entende como estado e como sociedade civil. Há que se atualizar os fundamentos teóricos e práticos da democracia participativa que estão presentes em várias tradições do pensamento moderno como, por exemplo, no socialismo utópico francês, no pensamento pragmatista norte-americano  e mesmo naquelas tradições liberais que existiram antes da chegada do neoliberalismo e que propugnavam a liberdade de associação e a igualdade de todos os cidadãos perante a lei.
Nesta mesma direção os fundamentos da democracia participativa na América Latina e no Brasil não pode dispensar as memórias de lutas liberadoras como aquelas do zapatismo, dos movimentos indígenas e negros, dos camponeses, dos sem terras e sem tetos, das mulheres oprimidas e também das mães que se insurgiram  contra as injustiças das ditaduras militares. O momento exige uma nova coalizão das forças simpáticas a uma democracia que queremos e que tem a ver com o restabelecimento da prática democrática participativa e que valorize a vida comunitária e associativa e a responsabilidade dos indivíduos e grupos sociais na construção do fazer cotidiano solidário nos bairros, comunidades, cidades e regiões. Na organização das forças democráticas deve ser lembrado o valor estratégico dos apoios internacionais e latino-americanos inclusive dos movimentos intelectuais organizados que estão repensando o significado da utopia democrática e do próprio sentido ideológico das esquerdas neste século XXI.

sábado, 21 de maio de 2016

a doutrinação mais perigosa


por Contardo Calligaris
Na adolescência, os contos de Hemingway eram meu modelo de estilo, e eu tentava imitá-lo: frases curtas, coordenadas, repetições frequentes etc. Imaginava que, dessa forma, eu escreveria sem retórica: só os fatos, sem a tentativa de convencer ninguém de nada.
Eu estava errado: o estilo dos contos de Hemingway é tão retórico quanto a escrita de um bacharel em direito do século 19. A retórica do bacharel incluía a vontade de falar diferente do povo e de se diferenciar dele. A de Hemingway, ao contrário, incluía a vontade de parecer espontâneo e "natural".
Em geral, a gente quase sempre acha que nossa escrita e nossa fala são "naturais", enquanto as dos outros são infestadas pela retórica. Na verdade, não há escrita ou fala que não sejam retóricas.
Guardemos essa constatação e vamos ao tema de hoje. Como assinala e discute o editorial da Folha de 15 de maio, na Câmara dos Deputados, em várias Assembleias Legislativas estaduais e Câmaras Municipais, "tramitam projetos contra a 'doutrinação ideológica' [das crianças] em matéria política, religiosa ou sexual".
Em Alagoas, onde a legislação já foi adotada, o professor deve evitar conteúdos que estejam "em conflito com as convicções morais, religiosas ou ideológicas dos estudantes ou de seus pais ou responsáveis".
O movimento Escola sem Partido chega a oferecer um modelo de notificação anônima para os pais denunciarem os professores que pratiquem "doutrinação" na escola.
Sou contra doutrinação, de todo tipo. Justamente por isso, parece-me bom que os professores proponham conteúdos diferentes do que os pais já pensam e já tentam impor às crianças. Sem isso, ir para a escola para o quê? Aluno bom é o que critica a casa graças ao que aprende na escola, e a escola graças ao que aprendeu em casa.
Não gostaria que meus filhos fossem doutrinados em marxismo (qual marxismo, aliás?), mas me parece impensável que eles não entendam nada e não leiam nada de um pensamento que foi a maior paixão intelectual do século 19 e do século 20. Também não gostaria que meus filhos fossem doutrinados em Bíblia (qual Bíblia, aliás?), mas me parece impensável que eles não leiam nada do livro que foi a referência central da cultura ocidental durante séculos.
A maior garantia contra conteúdos "invasivos" deveria ser a variedade das ideias que uma criança encontra na escola. No meu ginásio, o professor de filosofia era trotskista. Eu, na época, estava fundando o círculo estudantil Piero Gobetti (liberal e anti-fascista italiano). O professor de latim era monarquista: admirávamos seus poemas, mas éramos todos republicanos. Minha lembrança é que, longe de aderir à ideologia de um ou outro, foi discordando que aprendemos mais –discordando deles e dos nossos pais.
Aqui vem um problema mais sério. É fácil inventar sistemas de controle contra a transmissão de ideologias reconhecíveis. Por exemplo, era fácil se proteger do marxismo do professor de filosofia ou do monarquismo do professor de latim. Bem mais difícil era se proteger contra o professor de italiano, o qual não tinha "ideias" para "doutrinar" ninguém: ele apenas distribuía trivialidades como se, por serem triviais, elas não merecessem nossa atenção crítica. É o exemplo do começo: assim como não tem escrita que não seja retórica, não tem pensamento que não seja ideológico.
Como proteger as crianças contras as ideologias que se apresentam como jeitos "naturais" de pensar? Como evitar que elas aceitem ingenuamente os clichês que são transmitidos como "naturais"?
Receio que, retirando as ideologias explícitas (que podem ser combatidas, discutidas e recusadas), só reste para as crianças a ideologia do círculo da padaria, que é a mais perniciosa, porque parece ser o pensamento "espontâneo" de "todos".
Os próprios doutrinadores, nesse caso, sequer acham que estão doutrinando, porque concebem os clichês do seu pensamento como expressão da "natureza humana".
Você se pergunta quais são os conteúdos dessa ideologia implícita que contamina nossas crianças às escondidas? Seria bom voltar ao "Dicionário das Ideias Feitas", de Gustave Flaubert (Nova Alexandria).
PUDOR: mais belo ornamento da mulher. GOZO: palavra obscena. DEUS: o próprio Voltaire o afirmou: "Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo". DEICÍDIO: indignar-se contra, embora seja um crime pouco frequente.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

NOTA DA SBS SOBRE AS DEMISSÕES DE PROFESSORES E CENSURA AO ENSINO DE SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO BÁSICA

Como parte do fenômeno de cisão no debate sociopolítico no Brasil, temos observado interdição de certas reflexões próprias do campo da sociologia em instituições de ensino. Prova disso é que a Sociedade Brasileira de Sociologia tem recebido, nos últimos meses, frequentes denúncias relatando demissão de professores de sociologia da Educação Básica devido à supostas orientações ideológicas que deveriam ser evitadas e até combatidas.

Primeiro aspecto a destacar: conforme as Orientações Curriculares Nacionais, a sociologia no Ensino Médio é o espaço das ciências sociais nas instituições de ensino. Nesse sentido, considerando-a uma ciência pluri-paradigmática, ela é o lócus do acesso a uma densa produção constituída por diversos autores clássicos e contemporâneos, representantes de diferentes perspectivas analíticas fundamentadas em tradições teóricas que fazem parte da fortuna intelectual de nossa sociedade. Por isso, distintas vertentes teóricas não podem ser ignoradas em função da orientação familiar ou da comunidade local. Do mesmo modo, não se pode ignorar o potencial reflexivo das diferentes correntes teóricas da sociologia, particularmente em relação ao contexto social brasileiro, tão heterogêneo em suas desigualdades econômicas, culturais, étnicas e sociais.

A sociologia no Ensino Básico faz referência a um repertório intelectual legitimado e, como tal, deve ser reconhecido e respeitado no ambiente escolar. A perspectiva crítica acerca deste repertório não deve ser evitada; ao contrário será estimulada como resultado desta pluralidade.

Por isso, a Sociedade Brasileira de Sociologia, enquanto associação científica zela pela pluralidade teórica no ensino de sociologia e pelo direito dos docentes de transmiti-la de forma cuidadosa para os estudantes da Educação Básica.

Segundo aspecto que cumpre destacar: mais uma vez, conforme nos diz as Orientações Curriculares Nacionais, a sociologia no Ensino Médio tem como tarefa a desnaturalização dos fenômenos sociais. Com efeito, o pressuposto fundamental deste campo científico é considerar o comportamento humano socialmente condicionado. Inúmeras pesquisas nas ciências sociais – em particular na Antropologia – demonstram, de forma definitiva, que as relações humanas não são determinadas por imperativos naturais universais, mas que variam segundo os contextos sociais. Nesse sentido, rigorosamente, a desnaturalização dos fenômenos sociais é operação intelectual básica da sociologia. Isso implica em compreender, sob o ponto de vista das condições históricas e sociais, uma pluralidade de fenômenos, entre os quais, por exemplo, as formas de expressão religiosa e as questões relativas à identidade de gênero, temas que vem ocupando uma parte significativa da produção contemporânea na sociologia.

Por fim, é importante lembrar que a sociologia se refere a uma consciência racional da sociedade e representa um certo tipo de humanismo que reconhece a pluralidade de formas da vida social e estimula uma atitude reflexiva- a um só tempo indagadora e compreensiva. Entendemos que o trabalho educativo é o ato de produzir a humanidade em cada indivíduo singular e para tal a escola constitui-se em lócus privilegiado de socialização do conhecimento acumulado histórica e socialmente, o que significa reconhecer o caráter social do conhecimento no processo de construção dos campos científicos e suas respectivas epistemologias. Por tudo isso, a Sociedade Brasileira de Sociologia repudia veementemente o cerceamento da liberdade docente e defende a autonomia do seu campo científico na escola.

DIRETORIA da SBS

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Chamada de propostas de Grupos de Trabalho para o 18º Congresso Brasileiro de Sociologia

18º Congresso Brasileiro de Sociologia
26 a 29 de julho de 2017
Brasília, DF

Que sociologias fazemos?
Interfaces com contextos local, nacional e global

Chamada de propostas de Grupos de Trabalho

1. Apresentação 

O 18º Congresso Brasileiro de Sociologia, organizado pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), será realizado de 26 a 29 de julho de 2017 na cidade de Brasília. Terá como formato básico de organização os Grupos de Trabalho (GTs), Mesas-Redondas, Conferências, Fóruns, Sessões Especiais, Sociólogos do Futuro, além outras atividades que forem julgadas pertinentes pela Diretoria da SBS e pelo Comitê Científico do Congresso.
Esta chamada diz respeito à apresentação e seleção de propostas de Grupos de Trabalho. Posteriormente serão anunciadas novas chamadas concernentes a outras atividades que irão compor o 18º Congresso Brasileiro de Sociologia.

2. Envio de propostas temáticas para formação de Grupos de Trabalho

Os Grupos de Trabalho têm por propósito fomentar e aprofundar a discussão em torno de determinados eixos temáticos a partir de propostas de trabalhos e discussões. Os GTs constituirão a base programática do Congresso de 2017, potencializando a reunião de pesquisadores de diferentes regiões e em diferentes estágios de suas carreiras.
No processo seletivo, terão prioridades propostas que abordem:
1. questões emergentes, ligadas às mudanças experimentadas pela sociedade contemporânea;
2. desafios teórico-metodológicos com que se defrontam os cientistas sociais na atualidade.
3. na medida em que um dos eixos constitutivos do Congresso assentará numa reflexão sociológica dos diversos campos e/ou áreas da sociologia que vem sendo realizada no Brasil, num contexto de crescente internacionalização da sociologia, serão priorizadas propostas que também pretendam realizar um balanço crítico de sua área temática, apontando para avanços, lacunas e potencialidades dos trabalhos que vêm sendo realizados, levando em consideração as mudanças que vêm ocorrendo na sociologia em nível global.

Considerando o amadurecimento acadêmico da área de sociologia no país, os responsáveis pela proposta de GT deverão ter a titulação de doutor e ser associados da SBS, em dia com suas obrigações.

Cada proposta de Grupo de Trabalho deverá ter dois/duas coordenadores(as) e um(a) coordenador(a) suplente, de unidades federativas diferentes. A proposta deve incluir: título da atividade, nome completo, filiação profissional e titulação acadêmica dos proponentes, resumo de até 1000 caracteres. Deve acompanhá-la, ainda, um resumo expandido, de até 6000 caracteres, incluindo justificativa, relevância da proposta, subtemas, eventual histórico em congressos da SBS e outras informações que forem consideradas pertinentes.

A seleção das propostas, dentro dos limites de infraestrutura física do Congresso e com base nos critérios de excelência, relevância, interesse científico e atualidade, será realizada pelo Comitê Científico do Congresso, eventualmente assessorado por consultores ad hoc, e ratificada pela Diretoria da SBS.

As propostas devem ser enviadas para o endereço congresso@sbsociologia.com.br. Não serão aceitas propostas enviadas por outra via. É vedada a apresentação de mais de uma proposta pelo(a) mesmo(a) proponente.

Os proponentes ficam cientes que as informações dos GTs, caso necessário, poderão ser utilizadas pela SBS para a fundamentação de projetos de apoio financeiro junto a agências de financiamento e patrocinadores.

Maiores informações: http://www.sbsociologia.com.br/

"Vamos continuar tolerando o intolerável?"

quarta-feira, 6 de abril de 2016

a Sociologia como artesanato intelectual

v. 1, n. 01

jan. jul. 2013 | Modos de Pensar: a Sociologia como artesanato intelectual

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Por trás do laboratório secreto de Marx: Por uma concepção expandida do Capitalismo

O Capitalismo está de volta! Após décadas em que o termo raramente era encontrado fora dos escritos de pensadores Marxianos, comentadores de vertentes variadas agora abertamente se preocupam com a sua sustentabilidade, acadêmicos de todas as escolas se apressam a sistematizar suas críticas e ativistas pelo mundo afora se mobilizam em oposição às suas práticas.1 Certamente, o retorno do “capitalismo” é um desdobramento desejável e um marco preciso, se é que um era necessário, da profundidade da crise atual – e da carência generalizada de uma elaboração sistemática a respeito dela. O que toda essa conversa sobre o capitalismo indica, sintomaticamente, é a intuição crescente de que os males heterogêneos - financeiro, econômico, ecológico, político, social - que nos cercam podem ter uma raiz comum; e de que as reformas que se recusarem a lidar com os profundos alicerces estruturantes destes males inevitavelmente falharão. Igualmente, o ressurgimento do termo aponta para o anseio, em vários campos, por uma análise capaz de iluminar as relações entre as distintas lutas sociais de nosso tempo e de fomentar uma cooperação organizada, até mesmo completamente unificada, de suas correntes mais avançadas e progressistas em um bloco anti-sistêmico. O palpite de que o capitalismo é a categoria central desta análise é certeiro.

artigo completo aqui

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A mãe fundadora negligenciada – sociologia e androcentrismo

Harriet_Martineau_by_Richard_Evans

Por Ed Machado para o circuito acadêmico

O silêncio e a ausência costumam ser mais significativos que o dito e o  evidenciado. As histórias oficiais são ritualmente contadas, e acabam sendo naturalizadas e eternizadas. Na iminência de se tornarem inquestionáveis, essas histórias são confrontadas por vozes dissonantes que, embora sempre estivessem presentes, nunca foram de fato ouvidas.

Todos os semestres, nas aulas introdutórias de sociologia, mitos relativos à narrativa histórica desta ciência são perpetuados. Temos o conhecido mito da modernidade europeia, da qual a disciplina seria filha legítima; e o mito dos pais fundadores: Marx, Durkheim e Weber, às vezes também Simmel. Sem questionar, aceitamos convenientemente essas narrativas. Mas seria possível imaginar outras? Para Vineeta Sinha, socióloga da National University of Singapore, não é só possível imaginá-las, como também praticá-las

ler o artigo completo:

http://circuitoacademico.com.br/2015/04/07/a-mae-fundadora-negligenciada-sociologia-e-androcentrismo/

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Tecendo Redes, Suportando o Sofrimento: sobre os círculos sociais da loucura

Por Breno Fontes (UFPE): Este artigo tem por objetivo investigar a estrutura das redes sociais não ancoradas territorialmente; são interações mediadas pela Internet, capazes de estruturar laços secundários (predominantemente) e primários (de forma ocasional). De forma similar a outras práticas de sociabilidade ancoradas territorialmente, estas, mediadas pela Internet, também são capazes de prover apoio social. Tendo como ponto de partida o conceito de Círculos Sociais desenvolvido por Simmel, procuro construir uma tipologia de práticas de sociabilidades mediadas pela rede mundial de computadores, a partir de informações recolhidas na literatura especializada. A conclusão é que comunidades online de pessoas ligadas ao que designo círculo social de transtorno mental são importantes instrumentos para a criação de apoio social e disseminação de práticas e informações sobre cuidado.

Palavras-Chave: Simmel; Círculos Sociais; Internet; Saúde Mental

Leia o artigo completo aqui:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-45222014000300112&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

sexta-feira, 13 de março de 2015

XVII Congresso Brasileiro de Sociologia

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A Sociedade Brasileira de Sociologia apresenta o XVII Congresso Brasileiro de Sociologia, que será realizado de 20 a 23 de julho de 2015, em  Porto Alegre, no Campus Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O tema do evento é ‘Sociologia em Diálogos Transnacionais’, que chama a atenção para a importância dos debates correntes nas principais redes internacionais de pesquisa sociológica. Interconectadas, essas redes propiciam a crescente cooperação em pesquisa e docência de sociólogos brasileiros com colegas da América do Norte, da Europa, dos países lusófonos, dos países ibero-americanos, do denominado eixo ‘Sul Sul’, com destaque para as importantes conexões com pesquisadores dos países Brics, da América Latina e da África.

Página oficial do evento: http://sbs2015.com.br/

elite empresarial e elite econômica: o estudo dos empresários

COSTA, Paulo Roberto Neves. Elite empresarial e elite econômica: o estudo dos empresários. Rev. Sociol. Polit. [online]. 2014, vol.22, n.52, pp. 47-57. ISSN 0104-4478.  http://dx.doi.org/10.1590/1678-987314225204.

Os objetivos do artigo são verificar como a questão da elite se apresenta na literatura sobre empresariado no Brasil e contribuir para a construção de uma estratégia de análise que se paute por essa questão no estudo dos empresários. A análise dos estudos que tratam do empresariado como elite indica a existência de algumas lacunas e imprecisões. O uso da expressão "elite" nem sempre vem acompanhado do desenvolvimento de suas implicações teóricas e metodológicas. E os trabalhos sobre o empresariado que recorrem a métodos de estudo de elites tendem a associá-los, de forma precária, ao tratamento de outras questões, como a da classe. Nesse sentido, propomos a distinção entre elite empresarial, os dirigentes das entidades de representação do empresariado, e elite econômica, os dirigentes das grandes empresas. Pretendemos contribuir tanto para uma maior precisão das categorias analíticas, quanto para a construção de métodos e hipóteses de trabalho mais eficazes no estudo dos empresários. Ao mesmo tempo, propomos que as particularidades e semelhanças desses dois grupos que compõem a elite do empresariado sejam tratadas, sobretudo, mas não de forma exclusiva ou isolada, a partir da questão da política e das instituições políticas, em particular seus valores e suas formas de ação política.

Palavras-chave : empresários; empresariado; elites; elite econômica; elite empresarial.

Acesso livre ao texto completo: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/v22n52/04.pdf

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

curso de sociologia gratuito FGV

A Sociologia trata da discussão contemporânea sobre o conhecimento sociológico, apresentando conceitos, temas e autores centrais na definição da Sociologia. O objetivo do curso é oferecer aos professores de ensino médio e demais profissionais que lidam com a Sociologia um instrumento atualizado de informação e aprendizagem.

Faça sua inscrição gratuita:

http://www5.fgv.br/fgvonline/Cursos/AreaConhecimento/Educacao/Sociologia/OCWSOCEAD-01slsh2009-1/OCWSOCEAD_00/SEM_TURNO/387

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Agora é que a história do socialismo está começando

 

Michael Lowy, cientista social: ‘Agora é que a história do socialismo está começando’

No Brasil para uma palestra e vivendo na França há 40 anos, marxista brasileiro especializado em Walter Benjamin relaciona revolução com impulso messiânico

POR PEDRO GUEIROS

<br />Michael Lowy fala sobre religião e marxismo, dá sua opinião sobre utopia e comenta tropicalismo<br />Foto: Marcelo Carnaval / Agência O Globo

Michael Lowy fala sobre religião e marxismo, dá sua opinião sobre utopia e comenta tropicalismo - Marcelo Carnaval / Agência O Globo


“Nasci no Brasil, fui para a Europa fazer tese sobre Marx e vivo na França há 40 anos. Tenho estudado o judaísmo libertário e o grupo de pensadores que articulou a tradição messiânica com a utopia revolucionária. Sou um ateu religioso. Acredito no marxismo e no homem, mas essa já é uma fé profana”

Conte algo que não sei

Estima-se que o derretimento das calotas polares elevará o nível do mar em 70 metros mas basta subir um metro para as principais cidades ficarem debaixo d'água. A sociedade industrial capitalista ocidental nos faz caminhar para o desastre mais rápido do que se esperava. Estamos sob ameaça do dilúvio, como na Bíblia. Precisamos pensar numa alternativa civilizatória radical, determinada pela decisão coletiva e democrática. Chamo isso de ecossocialismo.

Boa parte dos intelectuais marxistas, como o senhor, tem origem judaica. A religião que oprime é a mesma que liberta?

Walter Benjamim denuncia o capitalismo como religião mas diz que o materialismo precisa da ajuda da teologia para ser redentor. Há na tradição judaica o messianismo, promessa de um mundo do qual a opressão, a fome, a miséria, a guerra desaparecerão. Isso tem potencial subversivo, mas não é monopólio dos judeus. O pessoal teologia da libertação, leitor atento do antigo testamento, se apropriou. Há uma relação forte desse elemento profético com o cristianismo da libertação na América Latina.

Por que antigos militantes de esquerda convertidos ao liberalismo tratam com despeito a bandeira vermelha?

Quem muda de lado tem contas a acertar com o passado, e ataca quem se mantém fiel a ideias. Alguns dos maiores inimigos do socialismo foram socialistas antes. Para citar um nome, Mussolini. O problema não é o indivíduo, há gente honesta e humana em toda doutrina. Mesmo na escravidão havia senhores que tratavam bem os escravos. O problema é o sistema. A escravidão tinha de acabar. O mesmo diz-se do capitalismo.

É preciso ser jovem de espirito pra crer no coletivo?

Em qualquer luta, a juventude é protagonista. Mas há gente de várias idades que continua convicta. Depois de passar a vida ouvindo que quando ficasse velho iria ver que as coisas são diferentes, o poeta surrealista francês Benjamim Péret disse: “Fiquei velho e não vi nada”.

O uso da força faz do oprimido de hoje o opressor de amanhã. A revolução definitiva será obtida por meio do amor?

O ideal seria a revolução do amor, pacífica, tal qual pregaram Luter King, Mandela. Infelizmente, sabemos que as classes dominantes resistem às mudanças, e há o perigo de uma resistência violenta das oligarquias. É importante buscar a transformação pela consciência, mas em certas circunstâncias você será obrigado a se defender.

Com a queda do muro, o que restou da utopia?

O que fracassou nos países do leste foi uma caricatura burocrática do socialismo: o marxismo foi usado só para legitimar um estado que não tinha muito a ver com a essência socialista, em que a sociedade controla democraticamente os meios de produção e consumo. Talvez no começo, havia uma tentativa, mas virou uma ditadura totalitária. Só que não acabou. Na verdade, é agora que a história do socialismo está começando.

Vistos como a civilização do atraso, os índios agora são o paradigma do futuro?

Benjamim dizia que o capitalismo tem relação assassina com a natureza. As comunidades primitivas do Brasil e de toda a América Latina consideravam a natureza como uma mãe generosa. Não por acaso, indígenas estão na vanguarda da luta. Não podemos voltar a viver como eles, mas aprender a respeitar essa mãe generosa.

Não é hora de buscar o tropicalismo como doutrina?

Não, mas todas as doutrinas europeias que chegam ao Brasil têm que se adaptar ao clima tropical, do contrário, não pegam. O marxismo é como arroz, é universal mas cada povo o faz de um jeito. Com o feijão brasileiro vai dar um gosto diferente.

 

originalmente publicado em:

http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/michael-lowy-cientista-social-agora-que-historia-do-socialismo-esta-comecando-14121271

quinta-feira, 14 de agosto de 2014