Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

GTs do XIV Congresso Brasileiro de Sociologia

Programação dos Grupos de Trabalho

Confira nos links abaixo a programação de cada um dos GTs do XIV Congresso. Na página do grupo escolhido, vá até o final para verificar todo o conteúdo das sessões e dos Laboratórios de Pesquisa.

GT01 - Agricultura Familiar, Desenvolvimento Rural e Segurança Alimentar

GT02 - Cidadania e Reconhecimento

GT03 - Ciência, Tecnologia e Inovação Social

GT04 - Consumo, Sociedade e Ação Política

GT05 - Cultura, Política e Memória

GT06 - Educação e Sociedade

GT07 - Ensino de Sociologia

GT08 - Estado e Sociedade na Modernidade Atual

GT09 - Estratificação e Mobilidade Social

GT10 - Gerações na Contemporaneidade

GT11 - Globalização da Agricultura e dos Alimentos

GT12 - O Fenômeno Religioso

GT13 - Ocupações e Profissões

GT14 - Os Limites da Democracia

GT15 - Pensamento Social no Brasil

GT16 - Questão Urbana

GT17 - Questões Étnicas e Raciais

GT18 - Movimentos Sociais Rurais e Estado: questões fundiárias, ambientais, trabalhistas e Identitárias

GT19 - Saúde e Sociedade

GT20 - Sexualidades, Corporalidades e Transgressões

GT21 - Sindicato, Trabalho e Ações Coletivas

GT22 - Sociedade da Informação e Sociedade do Conhecimento

GT23 - Sociedade e Ambiente

GT24 - Sociologia da Arte

GT25 - Sociologia da Cultura

GT26 - Sociologia da Infância e da Juventude

GT27 - Sociologia do Esporte e do Lazer

GT28 - Sociologia Econômica

GT29 - Teoria Sociológica

GT30 - Precarização, Solidarismo e Políticas Públicas no Mundo do Trabalho

GT31 - Violência e Sociedade

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

O dia em que o Brasil disse Não aos Estados Unidos

Pesquisadora recupera documentos com proposta de deportar negros americanos para a Amazônia

Carlos Haag (Edição Impressa 156 - Fevereiro 2009) - Pesquisa FAPESP - 

Washington, dezembro de 1862: em meio a uma custosa, em vidas e dinheiro, Guerra Civil, em que a União estava desesperada por fundos a fim de sufocar a rebelião dos estados confederados, o presidente Abraham Lincoln, em seu discurso anual, o State of the Union, ousou pedir ao Congresso a liberação de US$ 600 mil para outro fim que não o conflito. “Os congressistas precisam liberar o dinheiro necessário para a deportação de pessoas negras livres para qualquer lugar fora dos Estados Unidos”, afirmou Lincoln – cujo bicentenário de nascimento é celebrado neste mês – em seu discurso anual. Não foi a primeira ou a única vez que o governante, um ano antes da proclamação da emancipação dos escravos, falou oficial e publicamente sobre seu interesse em deportar negros: foram cinco declarações políticas, incluindo-se dois State of the Union e o discurso que precedeu a emancipação. “O local onde penso ter uma colônia é na América Central. É mais próxima de nós que a Libéria [território no continente africano, dominado pelos EUA, para onde foram enviados libertos]. A terra é excelente para qualquer povo, especialmente a semelhança climática com sua terra natal, sendo, portanto, adequada às suas condições físicas”, escreveu num artigo para o New York Tribune, “The colonization of people of african descendent”.
“O plano oficialmente proposto pelo presidente Lincoln e sancionado pelo Congresso, para dar início à tarefa de colonizar fora dos EUA os negros libertos ou em vias de serem libertados no decorrer da guerra, está em vias de se concretizar no máximo em cinco semanas. Eles serão transportados à custa do governo e mantidos durante a primeira estação à custa do Estado e para tal uma verba foi aprovada pelo Congresso”, afirmava, em agosto de 1862, um editorial do The New York Times. Foi com esse espírito que Lincoln nomeou como representante extraordinário e ministro plenipotenciário dos Estados Unidos James Watson Webb, um antiabolicionista que via a libertação de escravos como potencialmente mais perigosa do que a escravidão em si. “Não é apenas do interesse dos Estados Unidos e absolutamente necessário para sua tranquilidade interna que se livre da instituição da escravidão, mas também, em consequência do preconceito de nosso povo contra a raça negra, se torna indispensável que o negro liberto seja exportado para fora de nossas fronteiras, pois conosco ele jamais poderá gozar de igualdade social ou política”, afirmou Webb em carta ao secretário de Estado de Lincoln, William Henry Seward.

O tom, mais “discreto”, ainda assim não renegava (mesmo que Webb, então na situação, passasse a se dizer contrário à Secessão e, logo, à “lepra da escravidão”) os editoriais que escreveu, em 1843, para o Courier & Enquirer: “Libertar os negros do Sul e deixá-los onde se encontram será o início de um conflito que só poderá terminar com o extermínio de uma ou da outra raça. A raça negra é caracterizada por uma ignorância degradante e inferioridade mental, enquanto os escravocratas são honrados, patriotas e de mente elevada”. E foi na condição de representante oficial do governo americano que o mesmo Webb, em maio de 1862, submeteu ao governo brasileiro a proposta da constituição de uma empresa binacional de colonização da Amazônia com negros americanos livres ou em que seriam libertados ao longo da Guerra Civil. “O (marquês de) Abrantes apresentou três propostas do ministro americano, cujo fim é transvasar para o vale do Amazonas principalmente os negros que se libertassem nos Estados Unidos. O Abrantes ficou de tirar cópias de tão singulares propostas e de responder como convém ao Webb”, anotou dom Pedro II em seu diário em junho daquele ano, já ciente do projeto de “deportação” de negros. O primeiro historiador a chamar a atenção para essa história exótica foi Sérgio Buarque de Holanda, no prefácio que escreveu para o livro A Amazônia para os negros americanos, de Nícia Vilela, em 1968. “Não me ocorreu procurar em fontes documentais brasileiras outras notícias sobre o projeto. Percorrendo, com outros interesses, o arquivo pessoal do ministro Webb, hoje na biblioteca da Universidade de Yale, pude achar dois textos que se relacionam com o projeto”, afirmou Buarque de Holanda. A “dica” chamou a atenção da historiadora Maria Clara Sales Carneiro Sampaio, que saiu em busca de mais informações. Não achou nada no Brasil e partiu para Yale, onde teve acesso aos mais de dois mil documentos (que transcreveu) da coleção James Watson Webb Papers, dos anos 1862 e 1863. 
Em meio à papelada examinada por Maria Clara havia: minutas do projeto, cartas enviadas a Seward sobre o andamento das negociações e anotações de Webb sobre a situação do Brasil, que, acreditava, estava carente de mão-de- -obra escrava e aceitaria, de bom grado, receber os negros americanos em seu território. A partir do material levantado, a historiadora escreveu sua dissertação, Fronteiras negras ao Sul, orientada por Maria Helena Machado, professora associada da USP, onde o trabalho acaba de ser defendido. Maria Clara, em seu doutorado, vai expandir a pesquisa para os outros países também sondados por Lincoln. “Esse estudo revela as pouco conhecidas influências da Guerra Civil no Brasil. A ironia está no fato de o presidente Barack Obama ter Lincoln como modelo: se houvesse prevalecido a vontade dele, os EUA teriam expatriado os afro-americanos”, diz Maria Helena. “Ele foi um homem branco do seu tempo e, claro, compartilhava muitas das dúvidas de racistas sulistas sobre a possibilidade de negros se transformarem em cidadãos. No caso das expatriações, o interesse de Lincoln revela a sua dúvida se ex-escravos seriam assimilados na sociedade americana, mas também o seu feeling de que mais brancos, em especial aqueles dos estados fronteiriços entre o Norte e o Sul, apoiariam a abolição se fosse assegurado a eles que os negros libertos seriam ‘realocados’”, avalia a brasilianista Barbara Weinstein, professora de história em Yale.

O principal argumento apresentado por Webb em seu projeto baseava-se no suposto “estado crônico de falta de mão-de-obra no Brasil, em especial nas províncias do Norte”: “O rápido aumento do valor do negro no Rio de Janeiro e o avanço do café, somado ao decréscimo da população escrava, ao contrário da nossa, e que é de um tipo de africano bastante inferior aos trazidos ao Brasil, está rapidamente despovoando as províncias do norte do Império (Northern Provinces). A grande necessidade do Brasil agora é mão-de-obra. Pelas características de clima e solo, o trabalho negro é preferível ao branco”, justificava o americano. Não deixa de elencar as vantagens do uso do negro americano. “Deus criou nos corações do povo dos Estados Unidos, cujo clima e solo são propícios ao trabalho escravo, uma aversão à escravidão que resultou na maior guerra civil jamais vista. O negro que está prestes a ser manumisso (libertado) foi treinado para o trabalho: é dócil e tratável, mas suspira por liberdade. Deus, em Sua infinita sabedoria e misericórdia, tornou possível por meio da política e interesses dos EUA e do Brasil assegurar-lhe essa liberdade. O Brasil sofre pela falta de mão-de-obra. Quatro milhões de negros preparados para o trabalho, cada um valendo o equivalente a três africanos nativos, estão suspirando por liberdade e prontos para comprá-la no solo congenial do Brasil e sob as leis e instituições liberais brasileiras.” Afinal, continua Webb, “a Constituição do Brasil reconhece como iguais os negros dos homens brancos e igualmente elegíveis com ele aos mais altos cargos do Império, onde a distinção social entre as raças branca e negra, que já existiu, está quase erradicada”. O projeto, assegurava, era filantrópico. 
A base seria uma concessão ao governo brasileiro do direito de exclusividade de trazer para o Brasil colonos, africanos ou afro-descendentes, emancipados ou em via de o ser. O nome da proposta indica o sentido real: concessão ao general James W. Webb, que teria esse privilégio mantido por 20 anos. “As pessoas a serem introduzidas pelo concessionário e seus associados serão chamadas de ‘aprendizes’: seu trabalho por um período de cinco anos e um mês do dia do seu desembarque no Brasil será propriedade do concessionário”, afirmava o contrato de concessão. “Em vez de libertar o escravo imediatamente, ele será preparado para gozar de sua liberdade e, ao mesmo tempo, pagar por seu ensino, pelo custo de seu transporte e por sua futura moradia”, observava Webb na proposta. “Há indicações fortes de que havia interesses comerciais no projeto, tanto de Webb como de brasileiros, interessados em lucrar com a administração de uma companhia de imigração, nos moldes lucrativos das companhias de colonização na África, como a que gerou a Freetown, em Serra Leoa, em fins do século XVIII, por abolicionistas ingleses, com o objetivo de desembarcar africanos apreendidos em tráfico ilegal, ou a compra do território da Libéria pela American Colonization Society, nos anos 1820”, avalia Maria Helena. “O dedo de Deus aponta para as províncias do Norte do Brasil como o futuro lar dos escravos libertos dos EUA. O Brasil e o negro liberto irão ambos se beneficiar na mesma medida: um tratado entre os EUA e o Brasil, pelo qual todos os negros libertos dos EUA lá sejam agraciados com terras pelo governo do Brasil e ao término dos anos estabelecidos se tornem cidadãos brasileiros com todos os direitos e privilégios da população negra do Império”, argumentava Webb.

Reservadamente, o ministro americano até concede que, no caso dos estados do Sul do Brasil, a vinda de imigrantes brancos europeus seria uma solução, mas isso não daria certo na região dos trópicos ao norte. “Estando o tráfico de escravos em seu fim e verificando-se que a colonização da Europa consta em leis imprudentes e egoístas, bem, que sejam humildes os estadistas brasileiros frente às perspectivas que o futuro apresenta. A não ser que as províncias do Sul sejam satisfeitas com trabalhadores de fora, o que só pode ser conseguido com uma mudança nas leis de colonização do Império, as províncias abaixo do Equador perderão seus trabalhadores e o Norte, por causa disso, vai voltar a ser habitado por indígenas e bestas selvagens dos quais tinha sido resgatado com a introdução do trabalho africano”, escreveu Webb, em despacho sigiloso, para o secretário de Estado Seward. Mas não apenas a União olhava para o Brasil como uma válvula de escape capaz de resolver os problemas que se avizinhavam com a abolição generalizada dos africanos, resultado do avanço da guerra. Os estados confederados já cogitavam esse movimento muito antes de Lincoln, em especial a partir de outro projeto polêmico, desenvolvido em finais da década de 1840 pelo tenente sulista Matthew Fontaine Maury, estudioso das correntes marítimas, inventor do telégrafo submarino e do torpedo fluvial, que seria usado pelos confederados, para os quais ele era um ídolo da estatura de Robert E. Lee, durante a Guerra Civil. “Maury propunha, sob a capa da discussão sobre a livre navegação do Amazonas, a imigração em massa dos plantadores de algodão sulistas e seus escravos para o vale amazônico, ou ainda a imigração forçada dos escravos, tornando-se a Amazônia a válvula de segurança dos EUA”, afirma Maria Helena. 
Segundo a pesquisadora, prevendo a possibilidade de confronto entre Norte e Sul e as ameaças de perda do controle da situação que poderiam surgir com uma “guerra de raças”, Maury preconizava a transferência dos negros, capitaneada pelos sulistas, para o Brasil. “Não estou querendo transformar um território livre em escravista ou introduzir a escravidão onde ela não existe. O Brasil é um país tanto quanto o é a Virgínia. Sei que você se alegraria ao despertar um dia e afirmar que não existe mais escravidão na Virgínia. Isso sem tirar as correntes de um só braço, nem levar nenhum escravo à liberdade”, escreveu Maury. “Havia a questão da representação política. Os confederados colocaram a Amazônia no contexto da visão da liderança sulista, que acreditava ser necessário expandir a escravidão para um novo território para que aquela liderança continuasse a existir. Os confederados viam a escravidão como algo permanente e necessário ao seu modo de vida e estavam dispostos a derramar quanto sangue fosse preciso para impedir a abolição”, avalia Barbara Weinstein. “Só assim se pode entender a amplitude das propostas de Maury, que se convenceu de que o cenário privilegiado dos interesses sulistas estava na Amazônia. A medida que novos estados eram incorporados à União e a população dos estados não-escravistas crescia, o Sul viu-se ameaçado em sua representatividade. Expandir e anexar outras territórios era uma forma de equilibrar as forças políticas”, completa Maria Helena. “No momento em que os confederados resolveram se separar dos EUA, muitos se preocuparam em como vencer um Norte industrializado e mais populoso. O Deep South (o Sul profundo) aos poucos foi se convencendo de que teria que fazer uma aliança com o Brasil, o Deepest South (o Sul mais profundo) para sobreviver e assegurar que a escravidão seria mantida naquele hemisfério. Para figuras como Maury, o Brasil era não apenas a esperança de vencer a Guerra Civil, mas também um refúgio ideal em caso de derrota. Era o chamado slave imperialism, o imperialismo escravista”, afirma o brasilianista Gerald Horne, catedrático em história afro-americana da Universidade de Houston.

Para tanto, tomar a Amazônia era uma necessidade e mesmo um dever, parte do “destino manifesto”: “Quem vai povoar o vale do poderoso Amazonas? Aquele povo imbecil e indolente ou ele será desenvolvido por uma raça com energia e engenhosidade capaz de domar a floresta e trazer à tona os recursos que jazem ali?”, perguntava-se Maury em carta ao cunhado William Herndon, encarregado pela Marinha dos EUA de explorar a área sem nenhuma permissão do governo brasileiro. “Creio que o Brasil não vai colocar obstáculo ao povoamento da região por cidadãos americanos que escolherem ir para lá com seus escravos. Assim como o vale do Mississippi foi a válvula de escape para os escravos do Norte, agora livres, o Amazonas será para aqueles escravos do Mississippi”, acreditava o militar confederado. O estabelecimento de uma “República do Amazonas” seria o ápice da expansão sulista sobre o Brasil, a ponto de o abolicionista negro Frederick Douglass confessar sentir-se alarmado com esses planos amazônicos que, segundo ele, “tinham sido iniciados por capitalistas de nossas metrópoles e por meio de expedições ao Brasil, país com que, sem sucesso, eles tentam estabelecer um tratado para a proteção e propagação da escravidão no continente”. “Para os confederados era necessária a combinação entre as duas grandes nações escravistas da América, uma forma de resistência à pressão abolicionista do resto do mundo”, nota Horne. Seward, por meio de Webb, por várias vezes repreendeu o Brasil por sua suposta colaboração com embarcações sulistas que desembarcavam no Rio e em Salvador, bem como temia que o Império reconhecesse oficialmente os estados confederados. 
Foi justamente o projeto de um “imperialismo escravista” da absorção do Deepest South, como o preconizado por Maury na década de 1850, que, em 1862, jogou um balde de água fria na proposta semelhante feita por Webb. “Foi necessária a cruzada de Maury para que o Brasil saísse do seu imobilismo e se dispusesse a enfrentar a questão da navegação do Amazonas. Em 1851, o governo imperial já cuidava de se entender com os estados ribeirinhos do Amazonas e seus afluentes, para uma futura política de limites de navegação e proteção do Amazonas”, explica Nícia Vilela em seu A Amazônia para os negros americanos. Assim, apenas em 1867 é que o Brasil se sentiu à vontade, dado o novo quadro estável de relações interamericanas, para abrir o Amazonas para a navegação internacional. “A reação brasileira ao projeto de Webb desenhou-se, em verdade, a partir da pressão da proposta de Maury, uma década antes. Enquanto o americano, nos EUA, propagandeava as vantagens de se ocupar o vale amazônico e as riquezas que seriam geradas pela livre navegação do rio, o Brasil começou a fazer esforços diplomáticos e políticos brutais para segurar o avanço norte-americano sobre a soberania do Império”, nota Maria Helena. Logo, não deveria ter causado surpresa a Webb a negativa do governo brasileiro.

"General: tive o prazer de ler com a máxima atenção os documentos que me confiou e agora lhe dou retorno em relação ao seu plano de introdução de negros libertos no Brasil. Devo admitir que o objetivo em si é altamente interessante. É minha opinião pessoal que suas ideias merecem consideração e que muitas delas, em circunstâncias favoráveis, seriam de grande utilidade. No entanto, nada dessa ordem poderá ser tentada em nosso país, pois temos uma lei que impede expressamente a entrada de qualquer negro liberto em nossas fronteiras. Encaminho a lei para seu conhecimento. Renovo meus votos de apreço e estima. Abrantes.” O projeto foi arquivado. “A elite política brasileira já estava focada na atração de imigrantes brancos europeus para o Brasil: planos de imigração e colonização estavam totalmente orientados no sentido do ‘branqueamento’ da população brasileira, e mesmo propostas para trazer trabalhadores chineses falhou porque o Parlamento não aceitou a vinda de ‘não-brancos’”, analisa Barbara. “Havia também o desejo de proteger a Amazônia de intrusões comerciais estrangeiras, especialmente num momento em que o comércio de borracha se firmou como uma fonte de divisas significativas. Até se pensou em criar colônias agrícolas no Pará nessa época, mas seriam para brancos europeus.” Do lado americano, a rejeição brasileira incentivava cautela.

“Você pensa que avista o dedo de Deus apontando para as províncias do Norte do Brasil como a terra de promessas, descanso e reparação dos escravos dos estados do Sul desta República e pede ao presidente poder para negociar um tratado para efetivar a remoção de tais homens. O presidente não pode, sem consideração adicional, atender a este pedido”, escreveu Seward em carta aberta a Webb, publicada no The New York Times. “O presidente, embora negando conceder a você, no momento, a autoridade que você solicita, convida-o para a continuação das suas discussões, a partir da importante posição que você ocupa em um país de condição tão sugestiva para o pensamento liberal.” Secretário de Estado e presidente pareciam não falar a mesma língua (basta lembrar que Seward foi preterido pelo Partido Republicano por Lincoln para concorrer à Presidência): “Eu declino de mudar a colônia de negros libertos para qualquer Estado sem antes obter o consentimento do seu governo. Ao mesmo tempo, ofereci aos vários Estados situados abaixo dos trópicos, ou tendo colônias nestes lugares, para negociar com os EUA, sujeito ao consentimento do Senado, em prol da emigração voluntária de pessoas daquela classe para os seus respectivos territórios, com a condição de que sejam recebidas de forma justa e humana. Lamento dizer que muitos que gostariam de fazer isso não o fazem porque apenas Libéria e Haiti estão disponíveis e as pessoas não estão tão interessadas em ir para esses lugares tanto quanto para outros”, afirmou Lincoln em seu State of the Union, deixando claro que ainda tinha esperanças em ver concretizada a deportação voluntária.

“O senhor Seward falou bastante sobre a questão da emigração da população negra. Homens de peso, entre eles o presidente Lincoln, acreditavam que a melhor coisa para ambas as raças era a separação e a conservação do Norte apenas para os brancos. Mas membros do Partido da Emancipação eram contra essa remoção, pois não consideravam sábio abrir mão de tantos músculos e braços e se era prudente entregar esse poder para nações que não necessariamente serão sempre amigas dos EUA”, escreveu Lord Lyons, ministro da Inglaterra baseado em Washington, para seus superiores, relatando uma conversa que tivera com o secretário de Estado poucos dias antes da proclamação da emancipação. “Lincoln, no entanto, presidiu uma nação em guerra violenta e precisava de apoio do exterior e, assim, a última coisa que desejava era se envolver num conflito com uma nação estrangeira. Qualquer interesse que tivesse no projeto ou no Amazonas era menor se comparado com a sua necessidade de manter boas relações diplomáticas com o Brasil”, analisa Barbara. “Uma razão para que os negros americanos permanecessem no Norte foi por causa da relutância de algumas nações, em especial o Brasil, de recebê-los em meio a uma Guerra Civil, da mesma forma que a simpatia desse país pelos estados confederados foi fundamental para os rebeldes”, acredita Horne. Isso foi determinante na vinda, após a guerra, de ex-confederados ao Brasil. 
“Muitos emigraram e até tentaram trazer seus escravos (alguns até conseguiram), pois queriam viver num país onde o escravismo permanecia. A maioria se desencantou e voltou, mas muitos ficaram e fundaram comunidades. Alguns até pensaram em usar o Brasil como plataforma para construir um novo império escravagista e reverter o resultado da guerra”, diz Horne. Mas o dedo de Deus agora estava nas mãos do Norte.

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

61a. REUNIÃO ANUAL DA SBPC

visite o site do evento

Tema Central:
AMAZÔNIA: CIÊNCIA E CULTURA

Data:
12 a 17 de julho de 2009

Local:
Universidade Federal do Amazonas – UFAM
Campus Universitário, Bairro Coroado / Japiim
Manaus/AM

61sbpc

COMISSÃO ORGANIZADORA CENTRAL:

Aldo Malavasi (Coordenador)

Vera Maria Fonseca de Almeida e Val

Rute Maria Gonçalves Andrade

José Raimundo Braga Coelho (SBPC)

Almir Liberato da Silva (UFAM)

Carlos Roberto Bueno (INPA)

Maria Olivia de A. R. Simão (SECT)

Osail Medeiros de Souza (UEA)

COMISSÃO DE PROGRAMAÇÃO CIENTÍFICA:

Adalberto Luis Val (INPA) – Coordenador

Alberto Franco de Sá Santoro (UERJ-Física)

Bertha Koiffmann Becker (UFRJ-Geografia)

Clauzionor Lima da Silva (UFAM-Geologia)

Edileno de Moura (UFAM-Computação)

Ennio Candotti (UEA-MUSA)

Fernando Dantas (UEA-Direito Ambiental)

Luiz Carlos de Lima Silveira (UFPA- Medicina e Ambiente)

Marcelo Knobel (UNICAMP-Física)

Maria Manuela de Fonseca Moura (UNIR- C. Biológicas)

Mario Antonio Navarro da Silva (UFPR-Zoologia)

Pedro Leite da Silva Dias (LNCC-Computação Cientifica)

Regina Pekelman Markus (USP-Farmacologia)

Roque de Barros Laraia (UNB-Antropologia)

Vanderlan da Silva Bolzani (UNESP-Química)

Wilson Duarte Alecrim (UNINILTON LINS - Saúde)

Diretoria da SBPC

SECRETARIA EXECUTIVA:

Carlos Henrique Santos

Eunice Maria Fernandes Personini

Fernanda Rodrigues de Albuquerque

Kelly Cristina Fonseca

Léa Gomes de Oliveira

Luciane Cristina do Amaral

Paulo Sérgio de Oliveira

Thiago Bertolotti

Zuleica Revitto Barbosa

ASSESSORIA ESPECIAL:

Daniela Oliveira (Jornal da Ciência)

Jorge A. N. Cardoso (O&M)

Paulo R. P. Hoffman (O&M)

RPM Produtora (Informática)

Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

o capitalismo no divã

capitalismo

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

XIV Congresso Brasileiro de Sociologia

Sociologia: Consensos e Controvérsias

Todas as ciências avançam através de consensos construídos a partir de controvérsias, com base em debates de idéias e pesquisa empírica. Nesse momento em que a Sociedade Brasileira de Sociologia completa 60 anos parece-nos propício analisar que controvérsias se tornaram consensos e que consensos se dissiparam como forma de reflexão sobre o futuro da disciplina e da nossa sociedade.

A velocidade das mudanças nas sociedades contemporâneas abala nossos consensos, introduz novas controvérsias, exige abordagens comparadas e desafia a imaginação sociológica, dessa forma afetando nossos conceitos, pesquisas e atividades de ensino. Antigos temas ganharam novas dimensões e interpretações, outros são frutos de dinâmicas sociais que emergiram ou que eram antes ignoradas. A escolha do tema do congresso tem a intenção de estimular reflexões sobre a dinâmica das idéias, os desenhos de pesquisas e o futuro de nossa disciplina no Brasil e também em outros paises sejam eles em desenvolvimento ou desenvolvidos.

A sociedade brasileira se apresenta como um caso quase paradigmático no mundo contemporâneo por ser, de um lado, extremamente desigual e violenta e, de outro, contemplar uma enorme convivência das diferenças, no quadro de uma democracia representativa consolidada. Nossa sociedade apresenta grande capacidade de se transformar, ao mesmo tempo que conserva muitas práticas enraizadas no passado. Tendo em conta essas características, o objetivo do XIV Congresso Brasileiro de Sociologia é estimular uma profunda reflexão identificando controvérsias e consensos quanto às formas mais adequadas de abordar a sociedade em que vivemos, e com isso contribuir para o desenvolvimento de uma visão mais clara de nossos conceitos e nossas metodologias.

site oficial: http://www.sbs2009.sinteseeventos.com.br/

Sábado, 22 de Novembro de 2008

crise do capitalismo (2008)

UNCTAD
Os três passos políticos para enfrentar a crise, segundo a ONU
A comunidade global deve reconhecer que num mundo interdependente, país algum pode agir isoladamente. Não é possível para todos os países gerarem mais superávit primário ou melhorar sua competitividade internacional ao valorizar sua moeda ou cortar custos. O avanço de uma nação é o recuo de uma outra. A cooperação global e a regulação são imperativas. A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) sugere três passos iniciais para isso.
> LEIA MAIS | Economia | 30/10/2008
• Risco de deflação é maior que o de inflação, alerta Unctad

HAZEL HENDERSON
O circulo vicioso do sistema bancário
Atualmente, uma vez mais os contribuintes dos Estados Unidos, da Europa e Ásia estão sendo forçados a recapitalizar os bancos. Agora vem à luz que a realidade financeira é o contrário do que os economistas nos quiseram fazer crer: vemos que os bancos sempre receberam dinheiro dos contribuintes através dos bancos centrais para emprestá-lo, a juros, aos próprios contribuintes.
> LEIA MAIS | Economia | 29/10/2008

JUAN SOMAVIA
Número global de desempregados pode passar de 200 milhões
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma primeira estimativa do impacto da crise sobre a vida cotidiana das pessoas em todos os níveis da sociedade. O número global de desempregados poderá aumentar em 20 milhões, daqui ao fim de 2009 – ultrapassando o número de 200 milhões de desempregados no mundo pela primeira vez
na História.

> LEIA MAIS | Economia | 28/10/2008

RICARDO CARNEIRO
Um Banco Central peculiar
A todos, exceto os beneficiários de sempre, deve estar ocorrendo perguntar o que nos torna tão particulares a ponto de irmos na contra-mão das decisões dos principais bancos centrais do mundo, cuja atitude, diante da ameaça de uma crise de grande intensidade, tem sido a de reduzir suas taxas de juros básicas. A análise é de Ricardo Carneiro.
> LEIA MAIS | Economia | 30/10/2008
• A crise e a regulação do sistema financeiro

SUSAN GEORGE
"Devemos pensar grande"
Susan George é conhecida por suas críticas aos dirigentes da globalização corporativa e pelos livros combativos sobre a fome, o desenvolvimento e a dívida dos países pobres. Agora, argumenta, podemos aprender lições do início dos anos 40 para transformar nossas economias esfaceladas e interromper a mudança climática antes que seja tarde.
> LEIA MAIS | Internacional | 24/10/2008

PAUL SINGER
A relação entre as finanças e a economia da produção e do consumo
Para superar a crise financeira e impedir que ela lance a economia real em recessão, é essencial que o crédito seja restaurado, o que possivelmente exigirá uma intervenção efetiva do poder público nos bancos. Se os governos não fizerem isso, é provável que o dinheiro público injetado nos bancos seja entesourado, porque é o que todos os agentes privados fazem enquanto o pânico perdura.
> LEIA MAIS | Economia | 23/10/2008

LUIZ GONZAGA BELLUZZO
“Cortar gasto público? Foi essa
receita que empurrou a Alemanha para o nazismo em 1933”

Diante da crise que se aprofunda, o economista e professor titular da Unicamp sugere um tripé para preservar a economia brasileira: estatização do crédito, defesa das reservas cambiais e expansão do investimento público. O governo, adverte Belluzzo, está sendo acossado pela demência de um certo pensamento econômico que pode imobilizá-lo. "O governo brasileiro não pode sacrificar o PAC em nome de uma religião de superávit primário".
> LEIA MAIS | Economia | 22/10/2008
• "A palavra que falta dizer é estatização do crédito"
• Os antecedentes da tormenta

JEFFREY SACHS
Taxa Tobin, combate à pobreza e à destruição ambiental
Se os líderes políticos focarem apenas na estabilidade do setor financeiro, mas negligenciarem os problemas de fornecimento energético de longo prazo, a mudança climática, a produção de alimentos, o controle de doenças e a pobreza extrema, então o crescimento global será restaurado no curto prazo, apenas para sucumbir de novo e rapidamente, diz o economista Jeffrey Sachs.
> LEIA MAIS | Economia | 22/10/2008

PAUL KRUGMAN
Nobel de Economia defende aumento de gastos públicos contra a crise
Para enfrentar a ameaça de degradação social, desemprego e recessão, em função da crise financeira, o Prêmio Nobel de Economia propõe fortes investimentos em políticas públicas nas áreas de saúde e seguridade social, aumento dos impostos para os mais ricos e fortalecimento do poder de negociação dos sindicatos. Para Krugman, o aumento do poder dos sindicatos permitiria aumentar o número de empregos e a renda destinada à classe média
> LEIA MAIS | Economia | 22/10/2008

IMMANUEL WALERSTEIN
Depressão, uma visão de longo prazo
Estamos nos movendo em direção a um mundo protecionista. Estamos nos movendo para um papel muito maior do governo na produção. Mesmo os EUA e a Grã Bretanha estão nacionalizando parcialmente os bancos e as grandes empresas moribundas. Nos dirigimos a uma distribuição conduzida pelo governo, que pode assumir modos social-democratas à centro-esquerda ou formas autoritárias de extrema direita.
> LEIA MAIS | Economia | 22/10/2008

OLGÁRIA MATTOS
O “New Deal” de hoje passa pela redução da jornada de trabalho
É sugestivo do grau de entorpecimento intelectual que embala a vida interna das universidades e dos partidos políticos, que parta de uma filósofa, e não de economistas, a incisiva proposição de luta para devolver ao trabalho a centralidade que ele ainda deve ter nas relações sociais neste início de século XXI. Leia entrevista com Olgária Mattos.
> LEIA MAIS | Economia | 21/10/2008

FERNANDO CARDIM
"Será preciso repensar um projeto
para o país"

O Brasil tem alguns trunfos significativos para enfrentar a crise. Ao contrário de muitos países da periferia do capitalismo, a escala do mercado interno e a existência de uma base industrial ampla e sofisticada dá boa margem de manobra à economia brasileira. Mas é preciso realmente ativar essas potencialidades, defende o economista Fernando Cardim, professor da UFRJ.
> LEIA MAIS | Economia | 20/10/2008

PAUL VIRILIO
“O crash atual representa o acidente integral por natureza”
Há trinta anos o filósofo Paul Virilio analisa as catástrofes como a conseqüência inelutável do progresso técnico. Ele vê na crise financeira o exemplo mais acabado de sua tese, na qual as vítimas não são mais os mortos, mas os milhares de desabrigados que perdem suas casas.
> LEIA MAIS | Economia | 19/10/2008

DUAS CRISES, A MESMA CAUSA
A crise econômica é pequena em comparação com a falência ambiental
No dia 10 de outubro, Pavan Sukhdev, economista do "Deutsche Bank", líder de um estudo europeu sobre ecossistemas, relatou que, só com a devastação florestal, estamos perdendo em capital natural valores entre 2 e 5 trilhões de dólares por ano. As perdas acumuladas até agora pelo setor somam algo entre 1 e 1,5 trilhões. A análise é de George Monbiot.
> LEIA MAIS | Economia | 19/10/2008

CRISE FINANCEIRA
O caso britânico (II): As lições da crise
Um cartaz no escritório da Riverside Credit Union, uma empresa britânica de crédito com características de cooperativa, anunciava, orgulhosamente, entre outras vantagens, que a empresa pagava em dia seus clientes e não investia em ações na Bolsa de Valores. A mesma mensagem se lê no site da Riverside Credit: "Nossa empresa é como um banco, só que melhor". A análise é de Flávio Aguiar.
> LEIA MAIS | Economia | 15/10/2008
• Leia mais: O caso britânico (I): A direção da globalização vai mudar
• A semântica da crise
• O complexo de Titanic e a crise financeira mundial
• A força das nações

BERNARDO KUCINSKI
A conta da crise já chegou aos trabalhadores
Nem a crise é igual para todos. Parte das perdas bilionárias dos fundos de pensão nunca será recuperada. No Brasil, as perdas totais dos 350 fundos de pensão complementar superaram até outubro os R$ 40 bilhões, segundo a Secretaria de Previdência Complementar. Salvou-nos de um desastre maior, a demora do governo em autorizar os fundos a aplicar no exterior.
> LEIA MAIS | Economia | 14/10/2008
• A derrocada dos bancos americanos e seus efeitos no mundo

JOSÉ SARAMAGO
Onde está a esquerda?
No dia 1° de outubro, o escritor português provocou: "Imaginei, quando há um ano rebentou a burla cancerosa das hipotecas nos Estados Unidos, que a esquerda, onde quer que estivesse, se ainda era viva, iria abrir enfim a boca para dizer o que pensava do caso. Passou-se o que se passou depois, até hoje, e a esquerda, covardemente, continua a não pensar, a não agir, a não arriscar um passo". Segue aguardando resposta.
> LEIA MAIS | Política | 14/10/2008

NOAM CHOMSKY
A cara antidemocrática do capitalismo
A liberalização financeira teve efeitos para muito além da economia. Há muito que se compreendeu que era uma arma poderosa contra a democracia. O movimento livre dos capitais cria o que alguns chamaram um “parlamento virtual” de investidores e credores que controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.
> LEIA MAIS | Política | 13/10/2008

NOURIEL ROUBINI
Revisitando os 12 passos para o desastre financeiro
Em fevereiro deste ano, o economista Nouriel Roubini escreveu um artigo resumindo como a crise norte-americana iria se tornar mais severa e virulenta, podendo levar a um derretimento dos mercados financeiros e a uma recessão severa. Roubini começou a prever a catástrofe no mercado dos derivativos imobiliários há cerca de quatro anos. Foi chamado de louco e ridicularizado pelos oráculos de Wall Street.
> LEIA MAIS | Economia | 12/10/2008

ESPECIAL - FRANÇOIS CHESNAIS
O capitalismo tentou romper seus limites históricos e criou um novo 1929, ou pior
"Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler uma passagem de O Capital: o verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital; é o fato de que, nela, são o capital e a sua própria valorização que constituem o ponto de partida e a meta, o motivo e o fim da produção. O meio empregado - desenvolvimento incondicional das forças sociais produtivas - choca constantemente com o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização do capital existente". Leia a íntegra da palestra do economista francês François Chesnais feita em setembro, em Buenos Aires.
> LEIA MAIS | Economia | 09/10/2008

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES
"Entupiu o sistema circulatório do capitalismo. Precisa agir rápido, antes que ocorra a trombose"
Em entrevista à Carta Maior, a economista Maria da Conceição Tavares fala sobre a crise. “As autoridades monetárias de todo o mundo têm que intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é essa que está em curso", adverte. Para ela, o Brasil tem algumas vantagens importantes para enfrentar a crise, entre elas a existência de três fortes bancos estatais e pelo menos três grandes empresas públicas de peso, salvas do ciclo de privatizações desfechado pelo governo anterior. Isso dá ao governo instrumentos para intervir fortemente no mercado.
> LEIA MAIS | Economia | 08/10/2008

WALDEN BELLO
Tudo o que você quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender
O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? O pior já passou? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Qual a relação entre a política de reestruturação neoliberal, adotada para superar a crise de superprodução, e o colapso de Wall Street? Como se formam, crescem e explodem as bolhas e como se formou a atual bolha imobiliária? Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais, oferece algumas respostas a tais questões.
> LEIA MAIS | Economia | 07/10/2008

CAPITALISMO EM CRISE
O pânico nos mercados após o Plano Paulson
Desde outubro de 2007, quando os índices da bolsa começaram a cair, já se sabia que estava iniciando uma situação financeira crítica. A pergunta que todos se faziam era: quão crítica é essa situação? A outra pergunta era se teria relação com a economia real ou não. Vinte bancos ficaram expostos aos riscos dos derivados creditícios relacionados a hipotecas. Dez deles já desapareceram.
> LEIA MAIS | Economia | 06/10/2008

A ESTRATÉGIA DO MEDO
Algumas coisas que a mídia não diz sobre a crise nos EUA
Em um artigo intitulado "Querem nos meter medo", o cineasta Michael Moore (foto) conta como centenas de milhares de pessoas entupiram os telefones e correios eletrônicos dos congressistas dos EUA contra a lei proposta pelo governo Bush para salvar os bancos em crise. E aponta como Wall Street e seu braço midiático (as redes de TV e outros meios) seguem com a estratégia de atemorizar a população.
> LEIA MAIS | Economia | 01/10/2008

ENTREVISTA: ERIC HOBSBAWM
A crise do capitalismo e a importância atual de Marx
Em entrevista a Marcello Musto, o historiador Eric Hobsbawm analisa a atualidade da obra de Marx e o renovado interesse que vem despertando nos últimos anos, mais ainda agora após a nova crise de Wall Street. E fala sobre a necessidade de voltar a ler o pensador alemão: “Marx não regressará como uma inspiração política para a esquerda até que se compreenda que seus escritos não devem ser tratados como programas políticos, mas sim como um caminho para entender a natureza do desenvolvimento capitalista”.
> LEIA MAIS | Política | 29/09/2008

JOSEPH STIGLITZ
A crise de Wall Street equivale à queda do Muro de Berlim
Para o prêmio Nobel de Economia de 2001, a crise financeira que atingiu Wall Street e os mercados financeiros de todo o mundo equivale, para o fundamentalismo de mercado, ao que foi a queda do Muro de Berlim para o comunismo. "Ela diz ao mundo que esse modelo não funciona. Esse momento assinala que as declarações do mercado financeiro em defesa da liberalização eram falsas", diz Stiglitz.
> LEIA MAIS | Economia | 25/09/2008

CAPITALISMO EM CRISE
O resgate de todos os resgates: golpe de Estado cleptocrata nos EUA
O governo dos EUA mudou radicalmente o caráter do capitalismo norte-americano. Trata-se, nem mais nem menos, de um “golpe de Estado” a favor da classe que Franklin Delano Roosevelt chamava de “bancgsters”. O que aconteceu nas últimas semanas pode alterar o curso do século que começa de maneira irreversível. Estamos diante da maior e mais desigual transferência de riqueza desde que se presentearam terras aos barões das ferrovias na era da Guerra Civil. A análise é de Michael Hudson.
> LEIA MAIS | Economia | 22/09/2008
• O fundo político da atual crise econômica

ESTADOS UNIDOS
O naufrágio do centro do mundo: entre a recessão e o colapso
A imensidão do desastre em curso, o radicalismo das rupturas que pode gerar, muito superiores às causadas pela crise iniciada em 1914, gera reações espontâneas de negação da realidade nas elites dominantes, nos espaços sociais conservadores e para além deles. Mas a realidade da crise está se impondo. Nos centros de decisão econômica, a incerteza vai se transformando em pânico. A análise é de Jorge Beinstein.
> LEIA MAIS | Economia | 12/05/2008
• No início da segunda etapa da crise global

BOLHA NATIVA
Especulação gera "tombo" de US$ 30 a US$ 40 bi no Brasil
A versão brasileira da "ganância infecciosa" é pedagógica. Ela contaminou mesmo os ícones do empresariado produtivo nacional e ajuda a entender a mecânica da lógica especulativa que se espalhou pelo planeta, graças à supremacia dos mercados financeiros desregulados que agora derretem.
> LEIA MAIS | Economia | 12/10/2008

CRASH DE 2008
A exumação do discurso neoliberal na mídia (I)
A endogamia entre a mídia brasileira e as forças políticas do conservadorismo, uma parceria que impôs ao país uma agenda "de reformas" para liberar os mercados e submeter a sociedade, não é um fato isolado e ocorreu em praticamente toda a América Latina. Em 2003, por exemplo, a revista Veja publicou uma edição especial saudando os "campeões do neoliberalismo", Margareth Thatcher e Friedrich von Hayek.
> LEIA MAIS | Economia | 13/10/2008

A ESQUERDA EM DEBATE
República e Socialismo, também para o século XXI
É faticamente possível e eticamente desejável um mundo que supere a monstruosa constituição da vida econômica do capitalismo tardio, onde uma pequena elite se arroga ao poder de organizar, despótica e irracionalmente, a produção mobilizando – ou, alternativamente, deixando parados – milhões de despossuídos. A percepção da própria debilidade não é desculpa para não tomar a iniciativa, segundo deixou assentado o modesto realismo do Galileu de Bertolt Brecht: “Quando a verdade está demasiado débil para defender-se, tem-se de passar à ofensiva”. O ensaio é de Antoni Doménech.
> LEIA MAIS | Política | 06/10/2008

"HÁ SINAIS DE GOVERNO?"
Capitalismo vive seu Ensaio sobre a Cegueira
No cinema e no romance não há forças de redenção para a anomia descrita por Saramago. Algo semelhante parece ocorrer nesses dias marcados por um certo conformismo bovino na fila do matadouro. Reside aí, talvez, a verdadeira dimensão sistêmica da crise. Não se trata apenas de um atributo de abrangência econômica, mas sim da virtual incapacidade política de seus protagonistas para acionar uma mudança de rumo.
> LEIA MAIS | Economia | 03/10/2008

STIGLITZ, ROUBINI E GALBRAITH x PAULSON E BUSH
"Não financiar as idiotices de Wall Street"
Três renomados economistas norte-americanos - Joseph Stiglitz, Nouriel Roubini e James K. Galbraith, filho do celebrado John K. Galbraith - polemizam com o governo Bush em torno da concepção de seu plano para o sistema financeiro. Para eles, o plano original equivale a privatizar os lucros e socializar as perdas.
> LEIA MAIS | Economia | 03/10/2008

CAPITALISMO EM CRISE (I)
A farra financeira consensuada pelas elites
Enquanto a mídia corporativa brasileira fala em crise, há décadas ativistas e intelectuais denunciam caráter explorador do sistema financeiro. Enquanto especuladores e banqueiros alimentam-se da desordem mundial da globalização financeira, trabalhadores em todo o planeta arcam com custos da “economia de cassino” dos EUA.
> LEIA MAIS | Economia | 24/09/2008

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

A hipótese comunista deve ser abandonada?

por Alain Badiou para Revista Piaui

Se a concorrência, o “livre mercado”, a soma dos pequenos prazeres e os muros que nos protegem do desejo dos fracos são o alfa e o ômega de toda existência, coletiva ou privada, o animal humano não vale um tostão furado.

Gostaria de situar a eleição e a presidência de Nicolas Sarkozy, o qual, convenhamos, não constitui uma página grandiosa da história da França, num horizonte mais amplo. Numa espécie de afresco hegeliano, digamos, da história mundial recente. Estando entendido que por história recente não me refiro à tríade presidencial François Mitterrand-Jacques Chirac-Sarkozy, e sim ao devir da política de emancipação operária e popular iniciada há cerca de dois séculos.

Desde a Revolução Francesa e sua paulatina repercussão universal, desde os desdobramentos mais radicalmente igualitários da Revolução – entre eles as Leis do Máximo do Comitê robespierrista e as teorizações de Gracchus Babeuf –, sabemos que o comunismo é a hipótese certa. Na verdade, não existe outra, ou, em todo caso, não conheço nenhuma. Quem quer que renuncie a essa hipótese estará instantaneamente se submetendo à economia de mercado, à democracia parlamentar (que é a forma de Estado apropriada ao capitalismo) e ao caráter inevitável, “natural”, das desigualdades mais monstruosas.

“Comunismo”, o que isso significa? Como argumenta Karl Marx nos Manuscritos de 1844, o comunismo é uma idéia que se refere ao destino da humanidade. É absolutamente necessário distinguir este sentido da palavra do adjetivo “comunista”, inteiramente desgastado em expressões como “partidos comunistas”, “mundo comunista”, para não falar em “Estado comunista”.

“Comunista” tem primeiramente o significado negativo, como vemos no Manifesto do Partido Comunista: a lógica das classes, da subordinação fundamental dos trabalhadores a uma classe dominante, pode ser superada. Tal dispositivo, que é o dispositivo da história desde a Antigüidade, não é inevitável. Por conseguinte, o poder oligárquico, cristalizado no poder dos Estados, daqueles que detêm a riqueza e organizam sua circulação, não é inevitável. A hipótese comunista afirma ser possível outra organização coletiva, que eliminará a desigualdade das riquezas e até mesmo a divisão do trabalho: cada indivíduo será um trabalhador polivalente, e as pessoas transitarão entre o trabalho manual e o trabalho intelectual, entre a cidade e o campo.

A apropriação privada de riquezas monstruosas e sua transmissão familiar desaparecerá. A existência de um aparelho de Estado coercitivo, militar e policial, separado da sociedade civil, já não aparecerá como uma necessidade evidente. Após uma breve seqüência de “ditadura do proletariado”, encarregada de destruir os restos do velho mundo, diz Marx, haverá uma longa seqüência de reorganização, com base na “livre associação” de produtores e criadores, a qual servirá de suporte para um “depauperamento do Estado”.

O “comunismo” designa tão-somente esse conjunto bastante genérico de representações intelectuais. Esse conjunto é o horizonte de toda iniciativa que, por local e limitada no tempo que seja, ao romper com a ordem das opiniões estabelecidas (ou seja, a necessidade das desigualdades e do instrumento estatal para garanti-las), constitui um fragmento de uma política de emancipação. Para usar uma expressão de Kant, trata-se de uma idéia com função reguladora, e não de um programa.

É absurdo qualificar os princípios comunistas (no sentido que acabo de dar) de utopia, como acontece com freqüência. Esses princípios são esquemas intelectuais, sempre atualizados de formas diversas, que servem para traçar linhas de demarcação entre diferentes políticas. Grosso modo, uma dada seqüência política ou é compatível com esses princípios, e é emancipadora no sentido amplo do termo, ou bem a eles se opõe, e é reacionária.


Se ainda é verdade, como disse Sartre, que “todo anticomunista é um cão”, é porque toda seqüência política que, nos seus princípios ou na ausência de qualquer princípio, se mostra formalmente oposta à hipótese comunista, deve ser vista como contrária à emancipação da humanidade inteira – e, portanto, ao destino propriamente humano da humanidade. Quem não ilumina o devir da humanidade com a hipótese comunista (quaisquer que sejam as palavras que empregue, pois palavras importam pouco) o estará reduzindo, no que tange ao seu futuro coletivo, à animalidade. Como se sabe, é “concorrência” o nome contemporâneo, capitalista, dessa animalidade. Ou seja: guerra de interesses, e nada mais.

Enquanto idéia pura de igualdade, a hipótese comunista existe em estado prático desde os primórdios do Estado. Sempre que a ação das massas se opõe, em nome da justiça igualitária, à coerção do Estado, vemos surgir os rudimentos, ou fragmentos, da hipótese comunista. As revoltas populares, como a dos escravos liderados por Spartacus, ou a dos camponeses alemães liderados por Thomas Müntzer, são exemplos dessa existência prática.

Na forma explícita que lhe atribuem alguns pensadores e ativistas da Revolução Francesa, a hipótese comunista inaugura a modernidade política. É ela que derruba as estruturas mentais do Antigo Regime, sem, contudo, se articular com as formas políticas democráticas que a burguesia transformaria em instrumento da sua conquista do poder. Este ponto é essencial: desde o início, a hipótese comunista em nada coincide com a hipótese democrática que levará ao parlamentarismo contemporâneo. À luz da hipótese comunista, o que parece ser importante e criativo é de natureza diversa daquilo que é selecionado pela historiografia democrática burguesa. Essa é a razão por que, ao fornecer fundamentos materialistas à primeira grande seqüência efetiva da política de emancipação moderna, Marx, por um lado, retoma a palavra “comunismo” e, por outro, afasta-se de toda “politicagem” democrática – ele sustenta, com base na Comuna de Paris, que o Estado burguês, por mais democrático que possa ser, deve ser destruído.

Numa entrevista, Sartre diz: “Se a hipótese comunista não estiver correta, se não for praticável, significa então que a humanidade não é muito diferente das formigas ou dos cupins.” O que ele quer dizer com isso? Que se a concorrência, o “livre mercado”, a soma dos pequenos prazeres e os muros que nos protegem do desejo dos fracos são o alfa e o ômega de toda existência, coletiva ou privada,o animal humano não vale um tostão furado.

George W. Bush, amparado pelo conservantismo agressivo e o espírito de cruzada, e Sarkozy, amparado pela disciplina trabalho-família-pátria, querem reduzir a imensa maioria dos seres humanos a esse “tostão furado”. E a “esquerda” é ainda pior, quando justapõe a essas violências a sua generosidade oca, o seu vago espírito de caridade. À concorrência mórbida, à vitória dos filhinhos e filhinhas de papai, ao ridículo super-homem das finanças desenfreadas, ao herói dopado das Bolsas planetárias, a esquerda oferece os mesmos atores, mas com alguma gentileza social, um pouco de óleo de nozes na engrenagem, migalhas de pão bento para os deserdados – só tomando emprestado de Nietzsche, em suma, a figura exangue do último homem.


Acabar de vez com o Maio de 68 [como defendeu Nicolas Sarkozy na campanha eleitoral] significa aceitar que não existe outra escolha senão entre o niilismo hereditário das finanças e a piedade social. É preciso, então, não apenas reconhecer que o comunismo ruiu na União Soviética, não só admitir que o Partido Comunista Francês se desfez miseravelmente, mas também, e principalmente, renunciar à hipótese de que Maio de 68 foi uma criação militante claramente consciente do fracasso do “comunismo” de Estado. Maio de 68 e mais ainda os cinco anos que se seguiram inauguraram uma nova seqüência da verdadeira hipótese comunista, aquela que sempre mantém distância do Estado. Ninguém sabia, decerto, no que aquilo tudo ia dar, mas se sabia que se tratava do renascimento da hipótese.

Se Sarkozy é o nome desse estado de coisas, é preciso renunciar a toda idéia de renascimento semelhante. Se a sociedade humana é uma coleção de indivíduos que perseguem seus próprios interesses, se tal é a eterna realidade, o filósofo pode, e deve, abandonar o animal humano a esse triste destino.

Mas não deixaremos que o triunfante Sarkozy nos dite o sentido da existência nem as tarefas da filosofia. Pois isso a que estamos assistindo não impõe de maneira alguma a renúncia à hipótese comunista, e sim a reflexão sobre o momento em que estamos da história dessa hipótese.

Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Nação, Nacionalismo, Estado

O mundo ideal, para muitos indivíduos da nova sociedade do século XXI, de onde são enxotadas as utopias, ridicularizadas sempre que propõem enfrentar as desigualdades sociais e modificar as estruturas de poder que as originam e mantêm, seria um mundo sem governos, sem violência, sem drogas, sem políticos, sem normas, sem impostos, onde todos seriam física e financeiramente bem sucedidos, atletas e empresários, um mundo em que, acima de tudo, o Estado não existiria. A análise é de Samuel Pinheiro Guimarães.

Definições
1. Nação, em seu sentido político moderno, é uma comunidade de indivíduos vinculados social e economicamente, que compartilham um certo território, que reconhecem a existência de um passado comum, ainda que divirjam sobre aspectos desse passado; que têm uma visão de futuro em comum; e que acreditam que este futuro será melhor se se mantiverem unidos do que se separarem, ainda que alguns aspirem modificar a organização social da nação e seu sistema político, o Estado.

2. Nesse sentido, é possível falar de uma nação brasileira, de uma nação mexicana, de uma nação indiana, de uma nação americana e assim por diante ainda que grupos sociais dentro dessas nações possam ter interpretações diferentes de seu passado e aspirações distintas para seu futuro em comum, sem, todavia, que nenhum grupo significativo chegue a desejar e a lutar pela secessão.

3. Nacionalismo é o sentimento de considerar a nação a que se pertence, por uma razão ou por outra, melhor do que as demais nações e, portanto, com mais direitos, sendo manifestações extremadas desse sentimento a xenofobia, o racismo e a arrogância imperial. Nacionalismo é, também, o desejo de afirmação e de independência política diante de um Estado estrangeiro opressor ou, quando o Estado já se tornou independente, o desejo de assegurar em seu território um tratamento pelo Estado melhor, ou pelo menos igual, ao tratamento concedido ao estrangeiro, seja ele pessoa física ou jurídica. Os movimentos nacionalistas significativos do ponto de vista político, cujas manifestações históricas mais simples decorrem de identidade étnica, lingüística ou de pertencimento, no passado, a uma organização política, tem como seu principal objetivo o estabelecimento de um Estado ou a modificação das políticas do Estado para defender ou privilegiar interesses dos que integram um certo movimento.

Nacionalismo
4. O preconceito de considerar a sua nação melhor do que as demais tem sua origem na idéia de que as divindades teriam escolhido um povo, uma certa nação, como eleita i.e. a nação como um conjunto de indivíduos que adoravam uma certa divindade. O caso do povo judeu, o chamado povo eleito, é clássico e esta convicção tem conseqüências políticas até hoje, sendo talvez o Oriente Próximo o principal e mais complexo foco de tensão no mundo. O Japão é outro caso interessante na medida em que o Imperador era considerado Filho do Sol e como tal simbolizava o vínculo concreto entre o povo japonês e a divindade suprema. A China, tradicionalmente, se considerava tão superior aos povos vizinhos e mesmo a povos distantes que sequer admitia manter relações políticas em nível de Estados soberanos com outros Estados. Estes podiam, no máximo, oferecer tributos ao Império do Meio, centro da civilização, cujos imperadores se acreditava estarem diretamente vinculados às divindades celestiais.

5. O caso dos Estados Unidos, civilização mais recente do que a chinesa, a judaica e a japonesa (e mesmo a francesa, a alemã e a russa), é distinto mas as raízes do nacionalismo americano podem ser encontradas na religião protestante. Esta considera que o sucesso material é um sinal de aprovação divina, da própria salvação, de uma predestinação. De um ponto de vista coletivo, o sucesso material da sociedade americana significaria um sinal de aprovação divina, de que a sociedade americana seria eleita pelo Senhor e que, por esta razão, não só poderia como deveria assumir o papel de líder e de modelo para todas as sociedades e Estados. Esta missão salvadora dos Estados Unidos se encontra claramente expressa nos documentos de política externa dos Estados Unidos. A declaração do Presidente George W. Bush de que teria, literalmente, falado com Deus, a presença crescente e a enorme influência do fundamentalismo religioso, extremamente conservador, belicoso e nacionalista são aspectos, fatos reveladores desta convicção de povo, de nação eleita e, portanto, de superioridade em relação às demais nações.

6. Um dos principais movimentos nacionalistas viria a se desenvolver na Alemanha com base na superioridade de uma suposta raça ariana, germânica e pura que viria a redundar na tomada do Estado pelo Partido Nacional Socialista, com terríveis conseqüências para o mundo e, em especial, para aqueles que considerava como integrantes das raças inferiores, em especial os judeus, vítimas de uma política de eliminação física, o Holocausto.

7. O nacionalismo nos países desenvolvidos, em especial nas Grandes Potências, e sua pretensão de superioridade nacional redundou facilmente em políticas expansionistas e agressivas, tanto no continente europeu mas também na formação dos impérios coloniais, com a noção explícita de inferioridade dos povos e das culturas locais e até, eventualmente, a idéia de que seriam seres humanos distintos e mesmo inferiores. Em um exemplo chocante dessa pretensão, o General Westmoreland, então comandante em chefe das forças americanas no Vietnã, se referiu publicamente aos vietnamitas como seres diferentes “de nós”, para justificar certas ações das tropas americanas.

8. Assim, a característica central do sistema internacional nos últimos quinhentos anos desde a descoberta das Américas tem sido o imperialismo e o colonialismo, cujo fundamento de dominação, além da força, foi a ideologia de superioridade racial e civilizacional em relação às colônias e a seus povos e a agressão aos sistemas políticos, sociais e culturais de nações dominadas, pela força, pelas metrópoles européias (o que também ocorreu no processo de criação dos “impérios continentais” como na expansão territorial dos Estados Unidos rumo ao Oeste e da Rússia rumo ao Leste e ao Sul). A escravidão foi a expressão máxima dessa dominação e os escravos eram considerados seres inferiores, sem alma, e portanto naturalmente sujeitos ao jugo e ao arbítrio de seus senhores. Lord Acton, em artigo publicado em 1862, afirmava que os Estados mais perfeitos são aqueles que como o Império Britânico e o Império Austríaco incluíam várias nacionalidades distintas sem as oprimir porque “as raças inferiores se elevam ao viver em união política com raças intelectualmente superiores”.

9. Nos países da periferia, ex-colônias, ou ex-semicolônias, o nacionalismo tem natureza radicalmente distinta dos movimentos nacionalistas que se desenvolveram na Europa os quais tiveram sua reputação definitivamente manchada pelo nazi-fascismo, o qual tinha, aliás, seguidores e simpatizantes ardorosos em vários outros países europeus, além de Alemanha e Itália. Diga-se de passagem que os atuais “cosmopolitas” utilizam muitas vezes uma identificação errônea entre o nacionalismo europeu e o nacionalismo da periferia para desqualificar os movimentos anti-colonialistas, anti-imperialistas e hoje anti-globalização acusando-os de “nacionalistas” (ao que em geral acrescentam o termo populista). Os movimentos nacionalistas nas diversas colônias, com a variação natural de tempo e espaço, foram movimentos de afirmação da nacionalidade, de recuperação de tradições, de idioma, de autonomia política e de independência, em relação inicialmente às metrópoles coloniais européias, e, mais tarde, se transformaram em movimentos de afirmação política e de desenvolvimento econômico independente dos Estados que se originaram nas ex-colônias.

Nação
10. Ao final do Império Romano, as invasões das tribos bárbaras que viriam a ocupar as províncias romanas e a estabelecer os feudos, territórios em que os diversos líderes tribais tinham reconhecida sua soberania política e militar, ainda que mais ou menos limitada, estabelecem pela primeira vez, pela diferenciação de idiomas e de raças em fusão com os habitantes, as línguas locais e o latim popular, as sementes das nações e dos Estados modernos. A Igreja neste processo teve especial relevância na medida em que esses senhores feudais iriam se convertendo ao cristianismo e reconheciam a autoridade de Roma.

11. Esses sistemas feudais, frouxamente submetidos a um poder central, em geral o senhor de um feudo territorial e populacionalmente maior, correspondiam a um conjunto de feudos, territórios pequenos que, por força dos diversos sistemas de herança política (que aliás era também patrimonial), do regime de morgadio e de casamentos, viriam a se agregar progressivamente. As divergências sobre direitos hereditários, as guerras de conquista e a relação pessoal patrimonial dos senhores feudais com os seus territórios fariam com que periódica e eventualmente populações de distintas origens passassem a estar submetidas à soberania de distintos senhores.

12. Assim se formaram os Estados nacionais europeus, os quais na realidade não correspondiam a nações homogêneas mas agrupavam populações de distintas origens étnicas, com diferentes graus de miscigenação, com distintas tradições e às vezes religiões. Nesses Estados vigiam regimes absolutistas cujo fundamento era a doutrina do direito divino dos reis sobre todos os seus súditos (inclusive os nobres descendentes dos senhores feudais), monarcas que se apoiavam mutuamente nesta pretensão. Esses monarcas absolutos tinham o suporte ideológico de Roma, até que o protestantismo veio a opor ferozmente, em guerras sangrentas, alguns desses Estados, que continuavam, todavia, a acreditar e a defender a doutrina do direito divino dos reis.

13. A idéia de que o Estado nasce com a nação não corresponde à realidade na maior parte dos casos pois a nação seria de fato uma construção ideológica posterior, tendo muitas vezes a nação sido “construída” pelo Estado. A emergência natural das nações teria sido em realidade impossível devido à ignorância das massas, à diversidade de etnias e de religiões, à ausência de tradições reais, efetivas, à tardia fixação das línguas, às difusas tradições orais e, portanto, a emergência de uma nação teria sido somente possível após o surgimento do Estado moderno, que organiza uma administração central do Estado, e como conseqüência dos programas de educação pública, do serviço militar e da vontade dos dirigentes de unificar as populações. Todavia, se isto ocorre, i.e. se as nações foram construídas pelos Estados, torna-se necessário procurar esclarecer como surgiram os Estados.

14. Assim, nação e nacionalismo, apesar de serem conceitos difusos, correspondem a realidades que tiveram e têm forte impacto sobre a realidade política e se encontram estreitamente vinculadas a um outro conceito que, além de conceito, é o fato mais concreto da realidade quotidiana de todos os indivíduos, que é o Estado. Todas as questões teóricas e práticas relativas a nação e a nacionalismo como, por exemplo, em que medida a cada nação deveria corresponder um Estado; se as nações para serem consideradas como tal deveriam ser étnica, idiomática ou religiosamente homogêneas; se o nacionalismo seria sempre uma manifestação política perversa e perigosa; se o nacionalismo tende ao nazismo e assim por diante, passam a ter um interesse especial quando examinadas à luz da noção e da realidade do Estado.

A formação primitiva dos Estados
15. Apesar das diferenças importantes no processo de formação e de evolução dos atuais Estados, uma descrição geral um tanto ou quanto esquemática de sua formação pode ser feita, a qual teria de se ajustar e de ser qualificada, com as mudanças necessárias, a cada circunstância histórica e geográfica de Estados específicos, mas cuja dinâmica geral poderia ser considerada como razoavelmente válida para todos.

16. A diversificação das atividades produtivas e das funções sociais acarretava, mesmo nas sociedades mais primitivas, conflitos de interesses que tornavam necessária a existência de normas que disciplinassem as relações entre indivíduos e grupos e que, sendo aceitas, ou impostas, como válidas por todos, permitiam sua convivência social pacífica sem que fosse necessário recorrer permanentemente à força e à violência para garantir sua obediência.

17. A luta pela hegemonia (i.e. pelo direito de extrair riquezas naturais em um certo território e de nele organizar o trabalho humano) levava à sujeição de umas comunidades por outras e à definição de territórios e de suas fronteiras, dentro das quais essa hegemonia se exercia na prática pela definição de normas e pela capacidade de fazê-las aceitar se necessário pela força.

18. Naturalmente, os grupos hegemônicos em cada sociedade procuravam justificar e explicar sua hegemonia através de seus supostos vínculos com as divindades protetoras daquelas comunidades as quais lhes conferiam o direito de governá-las e, portanto, de elaborar as normas de conduta e de zelar pelo seu cumprimento.

19. As fronteiras separavam territórios geográficos dominados por distintos grupos hegemônicos cujos líderes procuravam acentuar as diferenças que existiam em termos de cultura, idioma, tradições e práticas religiosas entre as comunidades separadas por fronteiras e assim incentivavam a rivalidade e as noções de superioridade, que caracterizam os nacionalismos.

20. As fronteiras definem os limites físicos do exercício de hegemonia (de soberania) dos grupos e se estabeleceram no passado como resultado de processos de luta que vieram a se fixar em obstáculos naturais ao exercício eficaz da força, tais como mares, lagos, rios e cadeias de montanhas, obstáculos que contribuíram no passado, quando as distâncias eram muito significativas, para o desenvolvimento de tradições e idiomas distintos.

21. Na medida em que as sociedades se tornavam mais populosas surgia a necessidade de organizar instituições permanentes, encarregadas de elaborar as normas de conduta, de assegurar a obediência a elas e de financiar o seu funcionamento, através da coleta de tributos. Nas comunidades primitivas e menores, todos os indivíduos podiam participar da elaboração de normas sociais e todos podiam, em princípio, participar dos organismos sociais encarregados de zelar pela obediência a essas normas.

22. Na medida em que as comunidades cresciam em população e em que se diversificavam as atividades produtivas os indivíduos deixavam de poder participar diretamente dos processos de elaboração e de execução de normas e de solução de conflitos. Tornava-se necessário escolher representantes, para governar as sociedades através de sistemas cujas diferenças decorriam, como Aristóteles definiu na Política, de um julgamento aprioristico sobre a natureza humana. A questão básica, segundo Aristóteles, seria a de saber se todos os indivíduos seriam essencialmente iguais ou desiguais; e, caso desiguais, se uma família poderia ser considerada melhor do que as demais; ou se alguns indivíduos seriam considerados essencialmente melhores do que os demais. Dependendo da natureza desta convicção apriorística, os regimes políticos possíveis seriam a democracia, a monarquia e a oligarquia, com suas variações. É óbvio, todavia, que nunca houve um debate teórico sobre a natureza humana prévio à definição dos regimes políticos das comunidades humanas, primitivas ou não, os quais se definiram, isto sim, a partir do intenso conflito de interesses dentro de cada comunidade e da luta dos diversos grupos pela hegemonia.

23. De toda forma, mesmo na monarquia absoluta e nos regimes autoritários o rei ou o ditador não governa sozinho, não elabora as normas de conduta sozinho nem sozinho garante a obediência a elas. Tem ele de se fazer valer de auxiliares, nobres, ministros, apparatchiks ou que nome tenham, aos quais delega o exercício de parte de suas funções e prerrogativas e de cujo apoio político e militar necessita para se manter no poder. É possível imaginar que, no início, a escolha desses indivíduos se fazia principalmente no seio daquelas famílias dos grupos hegemônicos que organizaram inicialmente a comunidade e seus sistemas de produção e de defesa contra outras comunidades.

24. Os distintos regimes políticos, formas de governo, são apenas distintos sistemas de seleção dos representantes de uma comunidade para exercer as funções públicas e da forma de financiar o exercício dessas funções, que são legislar, executar e julgar. O conjunto de instituições que exercem essas funções de legislar, executar e julgar em nome do conjunto dos cidadãos de uma sociedade se chama Estado. Uma função essencial e preliminar do Estado é a organização de sua defesa em relação às pretensões territoriais de outros Estados e assim garantir a sua soberania sobre o seu território e a população que nele habita. O Estado, ainda que em suas formas primitivas e de alcance pouco abrangente, é, portanto, essencial para a convivência pacífica dos diversos grupos de indivíduos que habitam um determinado território e para a defesa de seus interesses em confronto com outras comunidades organizadas sob a forma de Estado. Naturalmente que os sistemas religiosos, com suas normas de conduta social e com o poderoso instrumento de sua sanção divina, faziam parte integrante dos Estados.

25. O Estado moderno detém o monopólio do uso da força que é sua prerrogativa essencial e indispensável para a manutenção eficiente de um sistema de normas e de governo.

26. A evolução histórica das comunidades primitivas através de guerras, da conseqüente incorporação de territórios e de sujeição da população neles existentes levou eventualmente à constituição dos Estados modernos. Naquelas circunstâncias em que essa incorporação de território e de população não foi aceita se verificam hoje as reivindicações mais ou menos violentas por autonomia ou independência, tais como ocorrem na Espanha, na China, na Iugoslávia, na ex-URSS, no Canadá, na Bélgica e em tantos outros países.

27. Essa evolução histórica das comunidades e nações levou à constituição e à definição dos territórios dentro dos quais se exerce a soberania de cada um dos 192 Estados atuais membros da Organização das Nações Unidas, cuja convivência pacífica somente se pode dar com obediência aos princípios dos Artigos 1 e 2 da Carta: solução pacífica de controvérsias; direitos iguais e autodeterminação; respeito pelos direitos humanos e liberdades fundamentais; igualdade soberana; abstenção de ameaças ou de uso da força contra a integridade territorial e a independência política de qualquer Estado.

28. A Revolução Francesa em 1789, a Revolução Russa em 1917 e a Revolução Chinesa em 1949, foram três grandes tentativas de modificação do sistema social e da organização do Estado, com enormes reflexos na história da humanidade: a primeira desencadeou o processo de eliminação dos direitos feudais e de transformação das monarquias absolutas na Europa (e de seus impérios coloniais, em especial na América Latina) ao afirmar que “cada povo é independente e soberano”; a segunda iniciou a primeira experiência de um modelo social e político alternativo ao capitalismo e ao liberalismo e reforçou, em competição com os Estados Unidos, que a advogava somente para os europeus, a idéia de autodeterminação dos povos; e a terceira iniciou o processo de transformação do Estado e da economia chinesa com as conseqüências que hoje fazem com que a China, ao crescer em média 10% ao ano nos últimos vinte anos, se tenha transformado na segunda maior potência econômica do mundo.

A visão do Estado no início do século XXI
29. A sociedade atual se caracteriza pela concentração de riqueza e de poder, pela transformação tecnológica acelerada, pela instabilidade social, pela ansiedade e frustração individual, pelo fundamentalismo religioso e pelo consumo de produtos que alteram a consciência, tais como o álcool, a cocaína, o ecstasy e outros narcóticos.

30. Nessa sociedade moderna, quer seja ela altamente desenvolvida ou subdesenvolvida, o controle do Estado, isto é, o controle do sistema de normas e de instituições que definem e garantem as características fundamentais do sistema de produção e que, não importa a razão, consagra certos privilégios, é essencial para as classes dominantes.

31. Todavia, no sistema democrático moderno, que é o resultado de uma história de lutas e de conquistas dos setores oprimidos da sociedade, a cada cidadão, conceito este que vem sendo definido de formas diferentes através do tempo e do espaço, cabe um voto no processo de escolha dos dirigentes do Estado. Por outro lado, no capitalismo a cada unidade monetária corresponde um “voto” no mercado e, portanto, as decisões sociais sobre o que produzir, como produzir, como consumir e os benefícios que decorrem dessas decisões se encontram altamente concentradas nas mãos das megaempresas, isto é, de seus acionistas-proprietários e de seus delegados, ou melhor empregados, os chamados executivos.

32. O grande e permanente desafio que tem de enfrentar os detentores do poder econômico na sociedade moderna de regime democrático em que a cada cidadão corresponde um voto consiste em como transformar poder econômico em poder político. Esta transformação é essencial para garantir a sobrevivência das normas fundamentais do sistema econômico e social e, eventualmente, para promover, à medida em que isto se torna necessário, sua modificação controlada, reformista e não-revolucionária, i.e. sem alterar as relações fundamentais de propriedade. Nos primórdios da democracia liberal tal desafio ainda não se colocava pois o regime era censitário, pois os indivíduos somente eram cidadãos na medida em que tinham certa renda, ou propriedade, ou pagavam impostos.

33. A primeira meta, portanto, no processo de transformar poder econômico em poder político, deve ser afastar a massa de cidadãos das atividades do Estado e da política, a qual é a atividade pela qual se controla o Estado, ou reduzir ao mínimo e controlar a participação dessa massa na política e no Estado. Assim, é necessário difundir uma imagem negativa do Estado e da política no seio da massa da sociedade mas certamente não entre os que compõem as suas elites.

34. A imagem do Estado que se difunde na sociedade atual, em que predominam os valores individualistas, exaltados pela mídia, pelo sistema educacional e até pelas religiões, é que o Estado é o moderno Leviathan, a fonte de todo o Mal.

35. De acordo com essa visão, a cobrança de impostos extorsivos (por menores que sejam em realidade) para alimentar uma burocracia parasitária, que se compraz em elaborar milhares de regulamentos inúteis e confusos, que estimulam a corrupção e tolhem a liberdade e a criatividade do indivíduo, puro e feliz originalmente, decorre da existência de um Estado que todos os dias infringe a liberdade individual e entorpece o desenvolvimento da sociedade. Esta visão, que persiste através dos séculos, se origina na crítica às práticas arbitrárias das monarquias absolutas do Renascentismo e do Iluminismo contra as quais a burguesia nascente e seus representantes políticos lutaram para poder implantar o capitalismo e o liberalismo como formas de organização econômica e política, em uma época anterior à revolução industrial e à revolução tecnológica.

36. Nesse Estado Leviathan do século XXI, reinaria maleficamente o político, o homem do Estado, o homem do Mal. Incompetente, é incapaz de enfrentar os males que afligem a sociedade; mentiroso, ilude os cidadãos a quem periodicamente atraiçoa; xenófobo, estimula os conflitos e corrupto, defende os interesses estrangeiros, ou os interesses dos poderosos ou os interesses dos incompetentes sociais que fracassaram na luta individualista pelo sucesso, enquanto se aproveitam das “vantagens” dos cargos que ocupam.

37. O desprezo e até o horror pela política (e pelos políticos) é sistemática e quotidianamente estimulado pelos meios de comunicação de massa, que procuram fazer crer aos integrantes das classes médias e trabalhadoras que a atividade política não é digna de um “homem de bem”, que este deve dedicar-se exclusivamente à sua atividade profissional seja ele um operário, um empregado, um técnico ou um profissional liberal, sob o risco de se corromper.

38. Na estratégia de estimular esse horror e desprezo (com o objetivo de afastar as “classes inferiores” da tentação de governar a sociedade) é necessário desmobilizar essas “classes”, desviar e distrair sua atenção, o que é tanto mais importante quanto mais desigual e excludente for a sociedade e, portanto, quanto maior for a ostentação de riqueza e mais gritante a miséria.

39. A distração da atenção das grandes massas trabalhadoras e das classes médias se faz pela criação de novos cultos e da promoção dos heróis desses novos cultos. A promoção desses novos cultos e a promoção desses novos heróis é feita através dos meios de comunicação de massa, em especial a televisão, e pela oferta maciça de entretenimento banal audiovisual, dos espetáculos musicais, dos folhetins, dos espetáculos esportivos, dos anúncios publicitários. A sociedade é a sociedade do espetáculo, onde tudo se transforma em espetáculo, inclusive a política.

40. O principal desses novos cultos é o culto do corpo, que se realiza através do “body building”, da engenharia plástica e das dietas corretas de alimentação (a dieta da sopa, das frutas, das proteínas, do tipo sangüíneo, das vitaminas...) e seus heróis são os atletas, os artistas e as modelos de moda, enquanto se deprecia o espírito e a cultura, mais pela omissão do que pelo ataque direto.

41. O segundo culto é o culto do dinheiro em que o empresário se apresenta como o grande herói, dinâmico, astuto, trabalhador incansável em busca do sucesso pessoal, e se procura convencer a todos que todos podem vir a se tornar empresários bem sucedidos e ricos, bastando seguir as estratégias descritas nos títulos da literatura de auto-ajuda empresarial: E se Harry Porter Dirigisse a General Eletric?, Casais Inteligentes Ficam Ricos, o Tao de Warren Buffet, Sun Tzu – a Arte da Guerra para os Executivos etc. O empresário é assim o herói que enfrenta o político vilão, é vitima e adversário do Estado, dá emprego às massas, é a favor da paz. Os heróis desses dois novos cultos são os modelos para os jovens e o escárnio dos idosos que já não podem ser atletas nem empresários, fracassados por não serem ricos e cuja experiência não tem valor na sociedade do novo e da obsolescência programada.

42. O mundo ideal, para os indivíduos da nova sociedade do século XXI, de onde são enxotadas as utopias, ridicularizadas sempre que propõem enfrentar as desigualdades sociais e modificar as estruturas de poder que as originam e mantêm, seria um mundo sem governos, sem violência, sem drogas, sem políticos, sem normas, sem impostos, onde todos seriam física e financeiramente bem sucedidos, atletas e empresários, um mundo em que, acima de tudo, o Estado não existiria.

O mundo real do século XXI
43. No mundo real do século XXI, existem 192 Estados e um número ainda maior de nações, e, portanto, trata-se de um mundo em que proliferam os conflitos e as divergências dentro e entre os Estados, e em que a elaboração permanente de normas e a atividade política incessante são realidades inescapáveis.

44. Não só existem hoje 192 Estados, mas o número de Estados vem crescendo desde que, em 1946, a Carta das Nações Unidas foi subscrita por seus Estados fundadores. Os Estados membros da ONU de 51 em 1946, passaram a 152 em 1980 e a 192 em 2008, e, à medida em que os nacionalismos se aguçam, estimulados ou naturais, outros Estados podem vir a surgir, como foi o caso recente do Kosovo, Estado de grande inviabilidade, mas que abre importante precedente, que afeta os interesses mais estratégicos dos Estados Unidos e da Europa. O estímulo aos nacionalismos locais na Europa enfraquece o novo nacionalismo europeu que se concretizaria na “cidadania européia”, ao tornar mais difícil a ação política da União Européia, enquanto que o estímulo aos nacionalismos na periferia tem o efeito de enfraquecer os grandes Estados como a China, a Índia e a Rússia. Politicamente, se fortalecem os nacionalismos o que enfraquece esses grandes competidores; economicamente, isto prejudica o processo de globalização ao multiplicar o número de Estados.

45. Os conflitos armados durante o século XX foram os mais sangrentos e destrutivos de toda a História da humanidade e o fim dos regimes comunistas, a cuja existência e ação se atribuía os conflitos entre Estados, não reduziu nem o número nem a intensidade desses conflitos.

46. O aumento do número de Estados decorreu certamente da vitalidade e do sucesso dos movimentos nacionalistas em sua luta contra a dominação dos impérios coloniais e contra os Estados sob cuja dominação se encontravam grupos nacionais irredentos, tais como ocorria na Checoslováquia, na Iugoslávia e na União Soviética.

47. A formação dos Estados foi certamente distinta na Europa, na América Latina, na África e na Ásia. Os Estados atuais, em especial na América Latina, onde as instituições das populações locais existentes à época da conquista ou foram totalmente eliminadas, como no caso do México e do Peru, ou eram frágeis, como no caso do Brasil, são o resultado muitas vezes da evolução do transplante de instituições européias feito pelas metrópoles para suas colônias. Na África, século e meio mais tarde, as colônias tiveram fronteiras arbitrariamente traçadas que, mais tarde, sobreviveram ao processo de descolonização, separando etnias, idiomas e tradições e dando uma razão para os conflitos que, todavia, muitas vezes, tem sua verdadeira origem em disputas pela exploração de recursos naturais. Na Ásia, a colonização européia se fez de forma mais indireta e encontrou sistemas políticos e administrativos muito mais sofisticados aos quais se superpôs. Hoje aquelas formas anteriores de organização, ou pelo menos seu espírito, sobreviveram nas organizações políticas do Estado asiático. Por outro lado, o atual processo de integração européia não é um processo de eliminação do Estado e de suas características fundamentais mas sim um processo de unificação gradual de Estados independentes que cedem parte da sua soberania aos órgãos supra-nacionais da União Européia. Este é um fenômeno semelhante ao que ocorreu no passado na Alemanha e na Itália e nada tem a ver com alguma suposta tendência histórica ao fim das fronteiras mas sim corresponde a um redesenhar de fronteiras e de cidadania. Trata-se em realidade da formação gradual de um novo (e enorme) Estado em um processo semelhante, mas de nenhuma forma igual (pois os Estados, na União Européia, ainda conservam um número muito maior de prerrogativas soberanas) ao que sucedeu na formação dos Estados Unidos, da Alemanha e da Itália.

O capitalismo e a campanha pelo fim do Estado
48. O capitalismo moderno tem como fundamento a propriedade privada dos meios de produção e como objetivo principal o lucro. Este objetivo supremo torna indispensável a permanente expansão da produção a qual depende, por sua vez, da divisão do trabalho e, portanto, da extensão do mercado.

49. Quanto maior a extensão do mercado maior a possibilidade de divisão do trabalho, maior a produtividade, maior a produção, maior o consumo, maior o lucro e maior a felicidade humana, já que, conforme Jeremy Bentham argumentou, seria impossível medir o grau de felicidade humana e assim se poderia considerar que quanto mais bens o indivíduo (e a comunidade) puder consumir maior a sua “felicidade”. Daí a alegria com que se saúdam os incrementos do PIB, enquanto se constata o alto grau de insatisfação do indivíduo comum mesmo naqueles países mais desenvolvidos. Claro está que, para as massas de excluídos, o aumento de sua “felicidade” somente poderá ocorrer quando conseguirem alcançar patamares mínimos e dignos de consumo de bens físicos e culturais.

50. Assim, o capitalismo, como forma de organização da produção, da distribuição e do consumo de bens, desde os seus primórdios procurou ampliar os mercados através da incorporação de forma pacífica ou violenta de populações e de territórios ao seu sistema de produção e assegurar a existência de sistemas políticos de elaboração e de execução de normas que garantissem sua expansão e seu funcionamento pacífico.

51. Esse processo de formação de mercados, de início locais, em seguida regionais, depois nacionais, posteriormente continentais e, finalmente, globais foi interrompido no período que decorreu entre 1914 e 1989, em que se verificaram as duas Guerras Mundiais, a Grande Depressão de 1929 e a Revolução Bolchevique de 1917 que implantou o regime socialista na Rússia e que viria a se expandir para a Europa Oriental, a China e a Ásia. O processo de descolonização, por sua vez, iria em muitos Estados de independência recente levar à organização de sistemas de produção de economia mista com alto grau de participação do Estado, o mesmo tendo ocorrido na América Latina. Esses eventos fragmentaram de diversas formas a economia mundial, interrompendo o processo de globalização de mercados e de integração da economia mundial e chegaram a parecer a muitos analistas como o prenúncio de uma eventual, mas certa, derrota do capitalismo diante do comunismo.

52. A queda do Muro de Berlim, a retirada das tropas soviéticas da Europa Oriental e do Afeganistão, a desintegração da União Soviética em quinze Estados independentes, a adesão ao capitalismo dos antigos regimes comunistas europeus, a nova política econômica na China, a reorganização das economias das ex-colônias da periferia através das condicionalidades vinculadas ao processo de renegociação de suas dívidas externas, criou a oportunidade para que o processo de globalização, i.e. de formação de mercados globais fosse retomado com todo o vigor ideológico e prático, através da incorporação desses “novos” territórios.

53. O processo de globalização, no início do século XXI, que corresponde à expansão do capitalismo e a sua permanente transformação tecnológica, para ser eficiente (maximizar o lucro) requer a uniformização das normas que regulamentam a atividade econômica nos distintos territórios soberanos. Exige também, retirar da arena da política a questão econômica, estabelecendo como verdade absoluta e intocável a política neo-liberal em seus preceitos fundamentais de propriedade privada e de livre jogo das forças de mercado que exigem, em conseqüência, programas de privatização (que chega até à segurança e aos presídios), de desregulamentação e de abertura comercial e financeira, de redução de impostos sobre o capital e de não-discriminação entre capital nacional e capital estrangeiro.

54. Para auxiliar de forma poderosa esta uniformização de normas nada mais útil do que a elaboração de teorias que advoguem o fim dos Estados nacionais (e dos nacionalismos), o fim das fronteiras, os benefícios do Estado-mínimo, acompanhados da negociação de normas internacionais que levem à adoção pelos Estados soberanos (na impossibilidade de sua sujeição política pela força) daquelas políticas neoliberais, tornando ilegais, e até “absurdas”, quaisquer políticas diferentes. Finalmente, a idéia de que a globalização econômica para ser eficiente depende de uma governança política global que assegure seu funcionamento e impeça tentativas nacionais de reversão e de limitação dos direitos de ação das mega-empresas multinacionais. Todavia, paradoxalmente, o próprio processo de globalização na medida em que não existe um Estado mundial, necessita de Estados nacionais para internalizar as normas negociadas internacionalmente e garantir sua vigência.

55. Na periferia do sistema econômico e político mundial, onde se encontram os Estados que são ex-colônias, tais como o Brasil, as disparidades de renda e de poder são extraordinárias dentro de seus territórios assim como entre essas ex-colônias e os países que integram o centro desenvolvido e poderoso do sistema internacional. As crescentes disparidades de poder entre o centro e a periferia do sistema, que podem ser constatadas pelo crescente hiato de renda per capita e de acúmulo de capacidade militar entre Estados desenvolvidos e Estados em desenvolvimento, fazem com que os Estados, única entidade na periferia capaz de enfrentar o poder das mega-empresas multinacionais, das agências “internacionais” e dos Estados desenvolvidos, sejam obrigados, para manter a convivência pacífica entre os setores da população atingidos pelas políticas neo-liberais dentro de seus territórios, a procurar executar políticas de desenvolvimento e de combate à pobreza que, muitas vezes, significam restrições ao processo de formação de mercados globais e ao livre jogo das forças de mercado.

56. Tais políticas são chamadas de nacionalistas e “populistas” e seus defensores são acusados, criticados e ridicularizados pela imprensa a qual, hoje na prática, é constituída por empresas multinacionais de entretenimento e informação e se encontram intimamente vinculadas às megaempresas multinacionais e delas dependentes, em conseqüência não só de seus interesses ideológicos comuns, na qualidade de empresas privadas que são, como pelo sistema de anúncios.

57. Os desequilíbrios de população, território, produto, forças armadas e desenvolvimento tecnológico entre os países do centro e os países da periferia tornam na prática impossível e utópica a idéia de governo mundial a qual é convenientemente substituída pela idéia de governança global, a qual na prática vem a ser exercida pelos organismos internacionais que foram criados após a II Guerra Mundial para assegurar a paz, a segurança política e a estabilidade econômica ou, quando estes organismos por uma razão ou outra se verificam insuficientes ou se tornam inconvenientes, por novas agências internacionais, ou multinacionais, a serem criadas.

58. As tentativas permanentes dos Estados no centro do sistema de impor suas políticas econômicas e sociais, as crescentes assimetrias de riqueza e de poder entre as sociedades do centro e as da periferia, o crescente hiato entre elas, e a tentativa dos Estados do centro de impor à periferia, pela violência ou pela pressão econômica, mudanças de regime político e econômico fazem ressurgir com mais força os movimentos anti-globalização e os nacionalismos.

59. Os atentados de 11 de setembro de 2001 assim como os movimentos migratórios constantes, decorrentes de diferença de oportunidades para os indivíduos entre a periferia e o centro, a que se somam ondas migratórias periódicas decorrentes de conflitos e de catástrofes naturais fizeram ressurgir nos países altamente desenvolvidos os nacionalismos xenófobos. Por outro lado, o desenvolvimento econômico na China e na Índia acrescentou uma forte demanda por energia, alimentos e minérios o que levou à acumulação de enormes reservas pelos países exportadores de petróleo, de gás, de minérios e de commodities agrícolas. A decisão desses países de investir tais recursos (dos “fundos soberanos”) em empresas dos países do centro do sistema mundial, tem provocado um movimento inédito que procura impor restrições aos fluxos de capital estrangeiro que se dirigem aos países centrais, cujos dirigentes e analistas argumentam serem estas restrições necessárias por razões políticas estratégicas.

60. Essa rápida expansão da demanda por energia, por minérios, por alimentos de parte de países como a China e a Índia, que resultou de sua legítima aspiração de atingir níveis de consumo dignos para suas populações que correspondem, somadas, a mais de um terço da população mundial, agregada à demanda das sociedades ocidentais, tem enorme impacto sobre o meio ambiente, em especial sobre a mudança climática, cujos efeitos, para serem evitados, tornariam quase que imprescindível uma maior intervenção do Estado na economia, o que afetaria o dínamo físico e ideológico do capitalismo.

61. Todavia, a academia, os organismos internacionais, a imprensa e os governos dos países altamente desenvolvidos permanecem convictos de que, para os países da periferia, o nacionalismo, que é o oposto do cosmopolitismo globalizador, e o populismo, que é o oposto do liberalismo radical, são dois males gêmeos a serem atacados e erradicados a qualquer preço. Para esses países subdesenvolvidos o melhor, para o seu bem (ou mal) seria se entregarem aos caprichos das vagas violentas da globalização radical e selvagem, cujos méritos são louvados dia e noite apesar das crises econômicas decorrentes da desregulamentação, da especulação dos mercados financeiros, do crescente hiato econômico e social entre o centro e a periferia do sistema e do renascer nos países centrais do nacionalismo econômico e do nacionalismo xenófobo contra os imigrantes da periferia. Periferia sempre vista como inferior por ser negra, índia ou amarela, bárbara, infiel e turbulenta.

62. Não obstante, os Estados da periferia, superadas as ilusões do fim da União Soviética, de uma Nova Ordem Mundial e dos benefícios da globalização, prosseguiram em seus esforços de desenvolvimento econômico, como no caso da China; de afirmação política, como no caso da Índia, e de luta contra a pobreza, como no caso do Brasil. Passaram a coordenar sua ação internacional, propugnando a reforma das Nações Unidas e do órgão central do sistema político-militar internacional, que é o seu Conselho de Segurança; a reforma do sistema comercial mundial através da atuação do G-20 na Rodada de Doha; a organização de blocos de Estados, como no caso da União Africana; a reforma do sistema de combate à mudança do clima e da matriz energética. Somente através de sua ação coordenada poderão defender seu direito ao desenvolvimento e à independência política em um sistema mundial que se caracteriza pela instabilidade econômica, pela violência dos poderosos, pelo desespero dos fracos, pela pobreza e riqueza extremas e pela ameaça à sobrevivência da humanidade.

Samuel Pinheiro Guimarães é secretário-geral de Relações Exteriores do governo brasileiro.

Sábado, 16 de Agosto de 2008

XIV Congresso Brasileiro de Sociologia: primeiras notícias

XIV Congresso Brasileiro de Sociologia – UFRJ-2009

Tive duas reuniões no Rio com os colegas do IFCS da UFRJ que formam a base da organização e do planejamento do congresso. Entre os colegas que participaram nas discussões estavam Glaucia Villas Bôas (presidente do congresso). Celi Scalon (Secretara Geral da SBS), Marco Aurélio Santana (1o Secretario da SBS), Elisa Reis (Membro do comitê cientifico da SBS), José Ricardo Ramalho (ex vice presidente da SBS), Bila Sorj, Maria Lígia Barbosa e André Botelho
Data do congresso: última semana de julho de 2009, de 3ª a 6ª feira (28 a 31 de Julho).

Abertura organizada pelo IFCS, no largo São Francisco, no centro do Rio Local do congresso - campus da UFRJ da Praia Vermelha Tema: Sociologia: consensos e controvérsias

O congresso marca 60 anos da SBS e 70 anos dos cursos de Ciências Sociais da UFRJ. O Congresso vai acontecer num ano de aniversários, então parece uma boa idéia pensar nos conhecimentos consolidados e nos novos debates, bem como nos velhos que se repetem.

O tema permite que cada GT, e algumas MRs possam estruturar debates, a respeito de consensos e controvérsias científicas relacionadas à: democracia brasileira, cidadania, miséria, às transformações das sociabilidades, teoria, violência, corrupção, arte, cultura, globalização, dimensões sociológicas da economia brasileira para dar alguns exemplos.

Estes debates devem nos permitir fazer balanços e repensar a direção da disciplina. Além disso, devem ajudar a situar e pensar a sua fragmentação.

A tradição da SBS tem sido, ao longo destes últimos anos, escolher um tema que represente de um lado a instituição que está sediando o evento, e também seja um tema significante do ponto de vista do movimento das idéias e/ ou responda às responsabilidades da SBS de fazer avançar a pesquisa e o ensino da sociologia no país e/ ou no mundo. Ou seja, pensamos que chegamos num tema que é a cara do Departamento de Sociologia do IFCS- UFRJ e também tem um apelo à formação de uma sociologia cada vez mais capaz de se exprimir em termos universais, resguardando suas particularidades e ser mais relevante.

SBS - Caderno de Resenhas

Resenhas
Clique para baixar o arquivo em pdf do quarto caderno de resenhas da SBS

Link: http://www.sbsociologia.com.br/downloads/Ano3_Nº4_Jul_08.pdf

Carta aos Conferencistas do I Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia

Prezado (a) Conferencista e/ou Expositor(ra),

Escrevo-lhes para reafirmar nossa agenda já estabelecida para o I Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia (conforme programação em anexo). Aproveito o ensejo para lhes enviar a Carta/Convite, já pública, estendendo o convite do Evento à Comunidade Científica (consultar o site www.encontronortesbs.com.br).

A Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e o Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Universidade Federal do Amazonas estão realizando o I Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia, com o tema Amazônia: em busca de novas abordagens, a ser realizado no período de 16 a 19 de setembro de 2008 na UFAM.

O I Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia objetiva propiciar a interação de professores/pesquisadores das universidades e institutos de pesquisas da região norte visando à criação de vínculos institucionais que possibilite a congregação de cientistas sociais na produção do conhecimento intelectual. Trata-se de proporcionar reflexões acerca das transformações econômicas, sociais, históricas, políticas, ambientais e culturais que perpassam a região amazônica, articulando as contribuições teóricas clássicas da Sociologia – e áreas afins – com as novas perspectivas teóricas de análise que surgem a partir das configurações contemporâneas.

Assim, está aberto o convite aos professores, pesquisadores e estudantes que estão interessados em discutir e compreender a Amazônia em sua diversidade sociocultural, buscando apontar caminhos em face das suas contradições e dilemas sociais. Consideramos fundamental a participação dos professores e/ou pesquisadores da região Amazônica na realização coletiva dessa aventura do conhecimento.

Atenciosamente,

Professor Antonio Carlos Witkoski

Sábado, 26 de Julho de 2008

Seminário sobre Sociologia no Ensino Médio

21 a 24 de julho, 2008
prédio de Ciências Sociais e Filosofia da FFLCH/USP

Será realizado em São Paulo um seminário sobre sociologia no ensino médio, de 21 a 24 de julho, no prédio de Ciências Sociais e Filosofia da FFLCH/USP. O evento conta com o apoio das seguintes entidades: Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, Universidade de São Paulo, Sociedade Brasileira de Sociologia, Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo – Sinsesp, Associação dos Professores dos estabelecimentos de Ensino Oficiais do Estado de São Paulo – APEOESP, Unicamp, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de Sociologia/FFLCH, Faculdade de Educação da USP. O seminário terá a denominação de curso de atualização para professores de sociologia, para garantir a certificação dos participantes pela secretaria da Educação.

O seminário é dirigido a professores(as) dos cursos de ciências sociais e metodologia do ensino de ciências sociais, professores(as) de sociologia da rede pública, alunos dos cursos de ciências sociais e os interessados na discussão da sociologia na escola de nível médio. O objetivo é de intensificar a relação entre a Universidade e o Ensino Médio, visando o estabelecimento de um diálogo produtivo que ajude a sustentar uma política de formação continuada dos professores de sociologia nesse nível de ensino. O programa segue abaixo:

21 de Julho

17:30 - Credenciamento dos inscritos

19h Abertura:
Coordenador: Tom Dwyer (SBS, Unicamp)
Composição da mesa: Autoridades presentes – representante da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo), Lejeune Mato Grosso, presidente do SINSESP, profa. Maria Isabel Noronha, presidente da APEOESP, profa. Dra. Sonia Penin, diretora da Faculdade Educação, prof. Dr. Gabriel Cohn, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, profa. Maria Arminda Nascimento Arruda, Chefe do Departamento de Sociologia.

19h30 - Conferência: Prof. Dr. Gabriel Cohn (USP)

22 de Julho

10h - Propostas curriculares da Sociologia no Ensino Médio
Coordenador: Ileizi Luciana Fiorelli Silva (UEL)

Expositores:
Representante da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – Proposta curricular do Estado de São Paulo
Aparecida Néri de Souza (Unicamp) – a proposta curricular de 1986
Maria Célia Paoli (USP) – a proposta curricular de 1992
Amaury Moraes (USP) – a proposta curricular de 2008

12h30 Almoço

14h - Grupos de Discussão: A implementação da proposta curricular: conteúdo, métodos e materiais.

23 de julho

10h - A Universidade e a formação de professores (discussão de experiências nos cursos de licenciatura)
Coordenador: Heloisa de Souza Martins (SBS, USP)

Expositores:
Ileizi L. Fiorelli Silva (UEL)
Suely Guadelupe (UNESP/Marília)
Ricardo Cusinato (UNESP/Araraquara) (a confirmar)
Áurea Guimarães (Unicamp)

12h30 - Almoço

14h - Grupos de Discussão: O papel da universidade pública na formação continuada de professores do ensino médio

24 de Julho

10h - História das lutas pela introdução da sociologia no Ensino Médio
Coordenador: Ruy Braga (SINSESP, USP)

Expositores:
Lejeune Mato Grosso (SINSESP)
Elisabeth Fonseca Guimarães (UFU)
Representante da APEOESP

12h30 - Almoço
14h - Plenária e encaminhamento de propostas
17h30 - Encerramento: Ruy Braga (SINSESP, USP)

Comissão Organizadora
Heloísa H. T. de Souza Martins
Amaury César Moraes
Ruy Braga

Maiores informações no site do Departamento de Sociologia da USP http://www.fflch.usp.br/sociologia onde a ficha para inscrições será disponibilizada.

Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Os sinos estão dobrando

José Luís Fiori

A União Européia é prisioneira, há muito tempo, de uma armadilha circular. Ela precisa de um poder centralizado, mas seus principais estados impedem este processo de centralização, porque, no fundo, a Europa está cada vez mais dividida, entre os projetos estratégicos de seus três principais sócios, a França, a Alemanha e a Inglaterra.

Data: 23/06/2008
Se fosse possível hierarquizar sonhos, a criação da União Européia estaria entre os mais importantes do século XX. Depois de um milênio de guerras contínuas, os estados europeus decidiram abrir mão de suas soberanias nacionais, para criar uma comunidade econômica e política, inclusiva, pacífica, harmoniosa, sem fronteiras, sem discriminações e sem hegemonias. Um verdadeiro milagre, para um continente que se transformou no centro do mundo, graças à sua capacidade de se expandir e dominar os outros povos, de forma quase sempre violenta, e muitas vezes predatória.

Depois de 50 anos do Tratado de Roma, o projeto inicial de unificação européia dobrou de tamanho, nasceu uma moeda única, e o PIB comunitário ultrapassou o dos EUA, com uma renda média alta e confortável. E, no entanto, as perspectivas de integração e unificação européia são cada vez piores, porque a expansão da comunidade veio junto com um comportamento social e político, cada vez mais xenófobo e competitivo. A “terceira via”, proposta pelo trabalhismo inglês, na década de 90, definhou e já foi esquecida; o socialismo e a social-democracia do continente é hoje um fantasma do passado, sem nenhuma identidade própria, e num estado de total pasmaceira intelectual, enquanto cresce por todo lado, o nacionalismo de direita e o fascismo, sob as mais diferentes formas de manifestação.

As populações fecham-se sobre si mesmas, e multiplicam-se as políticas de exclusão e de demonização do estrangeiro. O próprio Conselho da União Européia legitimou recentemente, a criação dos Centros de Internação de Estrangeiros, verdadeiros campos de concentração, onde os imigrantes podem ficar detidos até 18 meses, por uma simples decisão administrativa, sem que tenham cometido delito, e sem que exista controle externo ou judicial. Na França e Itália, da direita grotesca, de Berlusconi e Sarkozy, mas também na Espanha, do socialismo bem comportado, de Jose Luis Zapatero.

No meio deste quadro desastroso, caiu como uma bomba o resultado do referendo irlandês, que rejeitou o “Tratado de Lisboa”, que já havia sido aprovado por 18 países, e cujo principal objetivo é acelerar a centralização constitucional do poder, e a transformação da União Européia numa potencia global, com uma presidência permanente, e uma política externa unificada. Este processo de discussão começou em 2002, com a elaboração do primeiro projeto de Constituição, para a Europa, que ficou pronto em meados de 2003, foi aprovado pelo Conselho da União Européia, em 2004, e foi engavetado em 2005, depois da sua rejeição plebiscitária, pela França e pela Holanda. Este mesmo projeto constitucional foi retomado um ano depois, foi condensado, e foi transformado num simples “tratado comunitário”, que assim mesmo, acaba de ser rejeitado pelos irlandeses. Criando um problema grave, para a União Européia, porque o Tratado de Lisboa só pode se transformar em lei, se for aprovado por todos os 27 membros da UE.

Frente à esta nova crise, existem três propostas, sobre a mesa, para discussão do Conselho da União Européia, que se reunirá em Bruxelas, nos próximos dias 19 e 20 de junho: a exclusão temporária da Irlanda; a formação de uma Europa com duas velocidades diferentes, liderada por um “clube dos poucos”, mais favoráveis a criação de um poder centralizado europeu; e, finalmente, a proposta de congelamento, por alguns anos, do tratado, ou do próprio processo constitucional. A Alemanha e a França apóiam o afastamento temporário da Irlanda, e simpatizam com a proposta das “duas velocidades”, do primeiro ministro de Luxemburgo, Jean–Claude Juncker. Mas a Irlanda faz parte da “zona do euro”, o que dificulta sua exclusão, e além disto, a Grã Bretanha se opõe às duas primeiras alternativas, com o apoio da Suécia e Republica Checa, entre outros. Com isto, o mais provável é que se mantenha o impasse, a despeito de acordos pontuais, e acabe se postergando, na prática, o debate constitucional.

Porque por trás deste impasse, existe um problema muito mais grave: o fato que a União Européia seja prisioneira, há muito tempo, de uma armadilha circular. Ela precisa de um poder centralizado, mas seus principais estados impedem este processo de centralização, porque, no fundo, a Europa está cada vez mais dividida, entre os projetos estratégicos de seus três principais sócios, a França, a Alemanha e a Inglaterra. Depois do fim da Guerra Fria e da reunificação da Alemanha, ela se transformou na maior potência demográfica e econômica do continente, e passou a ter uma política externa independente, centrada nos seus próprios interesses nacionais, que incluem o fortalecimento dos seus laços econômicos e financeiros com a Europa Central, e com a Rússia. Este comportamento alemão acentuou o declínio da França, que tem cada vez menos importância internacional, e favoreceu o fortalecimento do “euroceticismo” britânico, reacendendo a competição e a luta hegemônica dentro da União Européia, e trazendo de volta velhas fraturas e divisões que estiveram presentes, em suas infindáveis guerras seculares.

Enquanto isto, a União Européia segue sem um poder central unificado capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas, aos seus estados-membros. Uma situação agravada pela sua submissão militar aos EUA, que impôs a expansão apressada da UE, em direção ao leste, para “ocupar” os estados que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia, e haviam estado sob controle soviético, até 1991. Como conseqüência, a União Européia se transformou num “ente político” fraco, com uma moeda falsamente “forte”, e com muito pouca capacidade de iniciativa autônoma, dentro do sistema mundial. E, do ponto de vista global - ao contrário do que pensam muitos analistas - virou uma carta fora do baralho, da nova geopolítica mundial, deste início do século XXI, onde aparecem apenas, com alguma relevância e de forma independente, os seus principais estados.

Mas apesar de tudo isto, neste momento, o “não” dos irlandeses está soando de forma tão dolorosa e melancólica, por uma outra razão: são os sinos que dobram pela morte do sonho europeu, da inclusão e da civilidade, da sociedade pacífica e sem hegemonias, e de um mundo sem novos campos de concentração.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

RUMO À CRIAÇÃO DESENHADA DE SERES HUMANOS?

RUMO À CRIAÇÃO DESENHADA DE SERES HUMANOS?
Notas sobre justiça distributiva e intervenção genética
José Luís Garcia

Resumo
Neste texto, pretende-se apresentar argumentos que situam o problema moral das possibilidades de selecção e modificação genéticas fora do primado da ideia do bem sobre o justo, próprio do sentido teleológico de justiça, explorando o alcance e alguns limites das teorias da justiça de orientação deontológica e carácter pós-metafísico, que concedem supremacia ao justo
perante o bem. As novas possibilidades da alta tecnologia genética, ao abrir o campo de acção de tratamento de doenças de espectro alargado ou ainda de erradicação genética de deficiências e doenças, tornam muito difícil esse horizonte não ser por vários considerado em termos práticos, impelindo a um tipo de reflexão que recorre às teorias normativas, de matriz rawlsiana, na linha clássica da ‘justiça como equidade’, e inclusivamente a lógicas de recorte utilitarista de benefício-risco. Simultaneamente, tais perspectivas de intervenção genética levantam complicados problemas relativos à moral da saúde pública e, mais ainda, reintroduzem o elemento trágico da vida humana por via dos dilemas relativos à ética da constituição da identidade humana.

leia o artigo aqui.

SOCIUS Working Papers

Nº08/2008, João da Mata - “Aspectos subjetivos das relações de poder contidas no assédio moral"

Nº07/2008, Míriam Rodrigues e Maria Luisa Mendes Teixeira - “Engolir sapos” no Ambiente de Trabalho:Uma Análise do Fenômeno do Assédio Moral no Cotidiano Profissional"

Nº06/2008, Ana Teresa Verdasca - "Portuguese Validation of the Negative Acts Questionnaire Revised (NAQ-R)"

Nº05/2008, Maria Zélia de Almeida Souza e Vera Lúcia de Souza - "Sistemas contemporâneos de desempenho e remuneração: condicionantes do assédio moral no Brasil?"

Nº04/2008, António de Sousa Uva - "Saúde Ocupacional e Assédio moral no Local de Trabalho"

Nº03/2008, António Garcia Pereira - "O Assédio Moral Causas e condicionantes"

Nº02/2008, João Peixoto e Ana Fonseca - "Migration, development and remittances in Europe: mixed impacts and the role of institutions"

Nº01/2008, Ana Catarina Kaizeler e Horácio C. Faustino - "Ética, Globalização e Ética da Globalização"

Revista Teoria & Sociedade

Andréa Zhouri

O PAPEL E A LEGITIMIDADE DAS ONGS COMO ATORES SOCIAIS NAS TRANSFORMAÇÕES DE VALORES DA SOCIEDADE .
Non-Governmental organizations: their role and legitimacy in the process of changing social values .

Cássio Correa Benjamin

SOBRE A NOÇÃO DE DEMOCRACIA
On the Concept of Democracy.

Fabrício Neves

CONHECIMENTO E IMAGINÁRIO SOCIOLÓGICO
Knowledge and sociological imagery

Lucas Azambuja

O CONCEITO DE AÇÃO ECONÔMICA EM MAX WEBER: UMA ANÁLISE A PARTIR DE 'A BOLSA'
The Max Weber's Concept of economic action: an analysis through 'The bourse'

Rodrigo Ferreira

O REINADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO EM BRÁS PIRES/MG: ENTRE MOTIVAÇÕES E OBRIGAÇÕES
The reign of our lady of the rosary in Brás Pires/MG: motivations and obligations in social behavior

Claudia Natividade & Sonia PImenta

A CONSTRUÇÃO SEMIÓTICA DA MASCULINIDADE NA MODERNIDADE
The modern semiotic construction of masculinity


ENSAIO Essay

Kleyton Rattes

ARRE! NOTAS SOBRE GUIMARÃES ROSA E TEORIA SOCIAL
Notes on Guimarães Rosa and Social Theory

X Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais

Sociedades Desiguais e Paradigmas em Confronto: economias, poderes e culturas
Dias 10, 11 e 12 de Dezembro de 2008
Universidade do Minho, Braga, Campus Gualtar

Caros/as colegas e demais interessados no evento. Em breve serão anunciadas as condições de inscrição e os grupos de trabalho nos quais os interessados poder-se-ao inscrever no X Congresso Luso-Afro-Brasileiro em Ciências Sociais e enviar os respectivos resumos de comunicações. Em todo o caso, para eventuais contactos poder-se-ão dirigir desde já por email ao Prof. Francisco Mendes: Email: fmendes@ics.uminho.pt

Ou por correio ou por fax para
Centro de Investigação em Ciências Sociais
c/o Manuel Carlos Silva
Departamento de Sociologia
Instituto de Ciências Sociais
Universidade do Minho
Campus Gualtar
4710-057 Braga
Telef 253-604212/ 253-604695/ 253-604280
Fax 253-678850/253-604696

Organização: Instituto de Ciências Sociais com a colaboração de Instituto de Educação e Psicologia, Instituto de Estudos da Criança, Instituto de Letras e Ciências Humanas, Escola de Economia e Gestão, Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais, Departamento Autónomo de Direito.

II Ciclo de Seminários sobre as Ciências Sociais e a contemporaneidade

O II Ciclo de Seminários sobre as Ciências Sociais e a contemporaneidade, promovido pela Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais - EPG – da Fundação Escola de Sociologia e Política – FESPSP, será realizado entre os dias 14 e 18 de julho do presente ano.

A atividade tem como intuito a disseminação do conhecimento sobre assuntos contemporâneos relacionados aos cursos oferecidos pela EPG. Por meio de apresentações individuais, alunos e ex-alunos de pós-graduação da FESPSP ministrarão seminários sobre temas correntes das Ciências Sociais. Deste modo, a comunidade acadêmica da FESPSP, bem como outros graduados nas áreas de humanidades, terão a oportunidade de participar das atividades e refletir acerca de problemas do cotidiano.

Serão abordados, de maneira mais especifica, temas referentes aos cursos lato sensu de Gestão Pública; Política e Relações Internacionais e Sócio-Psicologia.

Oficinas na Escola de Sociologia e Política de SP

Introdução à Gestão de Arquivos
Dia: 22/07/2008 – terça feira
Horário: 19h30 às 22h30

Na atividade, os participantes terão oportunidade de se familiarizar com as tendências metodológicas e conceituais da Arquivologia. A oficina é indicada para profissionais que atuem em áreas relacionadas com gerenciamento de informações.

Rachel Bueno é bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação e especialista em Documentação e Arquivos pela FESPSP. É professora da FABCI/FESPSP.

Sobre Globalização e cultura
Dia: 23/07/2008 - quarta feira
Horário: 19h30 às 22h30

A oficina pretende discutir como o tema da globalização envolve exercícios reflexivos sobre questões de identidade nacional. Assim, pensar a sociedade brasileira, por exemplo, exige uma atenção especial às conexões que a vinculam a processos históricos mais abrangentes,
dentre os quais, a mundialização.

Fábio Keinert è doutorando em sociologia pela USP e professor da escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da FESPSP.

Abordagem inicial à Sócio-Psicologia
Dia: 24/07/2008 – quinta feira
Horário: 19h30 às 22h30

A oficina pretende discutir a dinâmica das relações entre as disciplinas científicas, com ênfase nas relações entre a Sociologia e a Psicologia. Neste sentido, propõe-se apontar algumas linhas de aproximação e de afastamento entre essas duas áreas do conhecimento.

Fábio Keinert è doutorando em sociologia pela USP e professor da escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da FESPSP.

Introdução às Relações Internacionais
Dia: 30/07/2008 – quarta feira
Horário: 19h30 às 22h30

Esta atividade tem o intuito de inserir os participantes na discussão acerca das dinâmicas do poder e da política no mundo contemporâneo, refletindo sobre os principais processos das relações internacionais.

Solange Reis Ferreira é graduada em Comunicação Social pela FHA, pós-graduada em Política e Relações Internacionais pela EPG/FESPSP, MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC e mestre em Ciência Política pela Unicamp. É professora da Escola Pós-Graduada de ciências sociais da FESPSP.

Reflexões Sobre Meio Ambiente e Sociedade
Dia: 31/07/2008 – quinta feira
Horário: 19h30 às 22h30

A sustentabilidade tem sido um grande desafio para a humanidade. Desse modo, a oficina tem como objetivo estimular o debate sobre a complexidade das relações históricas e culturais da sociedade com o meio ambiente.

Paulo Marco é doutorando pela Faculdade de Educação da USP com intercâmbio acadêmico realizado na YORK University (Toronto - Canadá - 2007). Graduado em Engenharia Agronômica - (USP - 1992). Mestre em Educação (USP - 2004). É professor da escola Pós-Graduada da FESPSP.

Sexta-feira, 4 de Julho de 2008

socio-lógicas

Textos de Sociologia


Heráclito de Éfeso Um dia na vida do Brasilino - Paulo Guilherme Martins
Heráclito, o pensador do Logos - Orsely Guimarães Pensamentos de Mahatma Gandhi
O Epicurismo Discurso da Servidão Voluntária - Etienne de La Boétie
Discurso de Cícero contra Catilina (1ª Catilinária) Os Sertões, livro vingador de Euclides da Cunha - Lázaro Chaves
Auguste Comte - Vida e Obra Desobediência: Virtude Original do Homem - Oscar Wilde
Discurso preliminar sobre o espírito positivo - Auguste Comte O Príncipe - Maquiavel
Emile Durkheim - Vida e Obra O Socialismo e o Homem em Cuba - Che Guevara
Ciências Humanas e Filosofia - Lucien Goldmann Discurso del Comandante Che Guevara en la asamblea general de la ONU / 1964 - Espanhol
Rosa Luxemburgo - Valério Arcary Antologia Poética de Bertolt Brecht
Expressões Latinas de uso corrente Bertolt Brecht - Uma Biografia - Edmundo Moniz
Karl Marx - Vida e Obra O Homem e o Mito - José Carlos Mariátegui
Manifesto Comunista - Marx e Engels Manifesto do Surrealismo - André Breton
Que Fazer - Vladímir Lênin Salário, Preço e Lucro - Karl Marx
Teses Sobre Feuerbach - Karl Marx Bilhetes Surrealistas ao "Le Libertaire" - Vários Autores
Crítica da Filosofia do Direito, de Hegel - Karl Marx Jean-Paul Sartre - Vida e Obra
18 Brumário de Luís Bonaparte - Karl Marx Expressões Latinas de uso corrente
O Estado e a Revolução - LÊNIN Alguns "ismos" nas Ciências Sociais - J F Megale
A Consciência de Classe - Georg Lukács Um dia na vida do Brasilino - Paulo Guilherme Martins
Escritos Revolucionários - Errico Malatesta Um Velho Problema - Euclides da Cunha
Deus e o Estado - Mikhail Bakunin O Que é Sociologia? - Lázaro Chaves
O Direito à Preguiça - Paul Lafargue O Fanatismo da Descrença - Lázaro Chaves
A Desobediência Civil - Henry David Thoreau A Incrível Religião do Individualismo - Lázaro Chaves
O Novo PT - José Maria de Almeida Ser Brasileiro - Lázaro Chaves
O "Fim da História" ou A Ideologia Imperialista da Nova Ordem Mundial - Luiz Marcos Gomes Mito e Natureza - Lázaro Chaves
Que Carreira Seguir? - Lázaro Chaves Beeing brazilian - Lázaro Chaves
Max Weber - Vida e Obra Neoliberalismo e Globalização - Lázaro Chaves
Arthur Schopenhauer Réquiem ao PT - Plínio de Arruda Sampaio
Pierre-Joseph Proudhon "Sociedade Pós Capitalista?" - Lázaro Chaves
Por uma Arte Revolucionária Independente - André Breton e Leon Trotski Discurso del Comandante Che Guevara en la Asamblea General de las Naciones Unidas
Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel - Karl Marx Ode Ao Burguês nº 2 - Lázaro Chaves
Jean-Jacques Rousseau - Vida e Obra Reflexões sobre o Fundamentalismo - Lázaro Chaves
Discurso Sobre a Origem da Desigualdade - Rousseau Educação para a Redenção - Lázaro Chaves
História da Semana Euclidiana - Lázaro Chaves Bendita a Nação cujo Deus é o Senhor - Lázaro Chaves
As Idéias Fora do Lugar - Roberto Schwarz A Questão da Pena de Morte no Brasil - Lázaro Chaves
Teóricos de Frankfurt: Marcuse, Adorno, Horkheimer Euclides da Cunha e os Excluídos - Lázaro Chaves
Ultimatum Futurista - Almada Negreiros Contra o Estado: "Nell" e "Matrix" - Lázaro Chaves
Alguns "ismos" nas Ciências Sociais - J F Megale O que querem os anarquistas? - Lázaro Chaves
Introdução à Crítida da Filosofia do Direito de Hegel - Karl Marx Direitismo, doença senil do capitalismo - Lázaro Chaves
Anti-Düring - Friedrich Engels Globalização e Terrorismo - Lázaro Chaves
A rebelião das massas - Jose Ortega y Gasset Reflexões sobre Pedagogia - Lázaro Chaves
Sobre o Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem - Friedrich Engels O Mercado e a Tortura - Lázaro Chaves
Um Dia na Vida do Brasilino - Paulo Guilhermo Martins Tempos que se transformam - aos quais não me acostumo... - Lázaro Chaves
Neutralidade ou profissionalismo? - 24 de março de 2002 Sócrates e a Cicuta - Lázaro Chaves
A Arte da Guerra - Sun Tzu Que Carreira Seguir? - Lázaro Chaves
Ciências Humanas e Filosofia - Lázaro Chaves Reflexões sobre o Terrorismo - Lázaro Chaves
Ciência Política no Tempo Burguês - Lázaro Chaves Mito e Natureza
O que é Filosofia - Caio Prado Junior O Mito da Caverna - Platão
O Testamento de Leon Trotsky Brasil governado pelo Crime Organizado!
Efeitos do Neoliberalismo sobre a população em 3 filmes Neoliberalismo. Uma tragédia em 3 atos
Grandes Realizações dos EUA

Revista Tempo Social

Idéias para um programa de História intelectual.
Autor :ALTAMIRANO, Carlos
O intelectual modernista como artista: Rubén Darío.
Autor :ZANETTI, Susana
A invenção da ordem: intelectuais católicos no Brasil.
Autor :PINHEIRO FILHO, Fernando Antonio.
Sur: uma minoria cosmopolita na periferia ocidental.
Autor :GRAMUGLIO, Maria Teresa.
Anatomia do entusiamo: cultura e revolução em Cuba (1959-1971).
Autor :ROJAS, Rafael.
Ciências sociais no Cone Sul e a gênese de uma elite intelectual (1940-1965).
Autor :BLANCO, Alejandro.
Gerações pioneiras na sociologia paulista (1934 -1969).
Autor :JACKSON, Luiz Carlos.
Entrevista com Aaron Cicourel.
Autor :MICELI, Sergio, PINHEIRO FILHO, Fernando A.; et al
As manifestações institucionais e cotidianas do habitus.
Autor :CICOUREL, Aaron.
Entrevista com Enzo Faletto.
Autor :REGO, José Marcio.
Análise e memória (recordações de Enzo Faletto).
Autor :CARDOSO, Fernando Henrique.
Promessas e desafios do desenvolvimento.
Autor :GEREFFI, Gary.
O pulo do gato da pequena indústria precária.
Autor :NORONHA, Eduardo G. e TURCHI, Lenita.
O legado de Oracy Nogueira ao estudo das relações raciais.
Autor :LIMA, Márcia.
Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil.
Autor :NOGUEIRA, Oracy.

Sociologia do Judiciário


Violações de direitos humanos, lei e memória coletiva por Joaquin J. Savelsberg

Dezessete anos de judicialização da política por SLuiz Werneck Vianna, Marcelo Baumann Burgos e Paula Martins Salles

A justiça do trabalho por FRegina Lucia M. Morel e Elina G. da Fonte Pessanha

Etnografia dissonante dos tribunais do Juri por MAna Lúcia Pastore Schritzmeyer

A justiça no tempo, o tempo da justiça por Sérgio Adorno e Wânia Pasinato

Reforma da justiça (estudo de caso) por Jacqueline Sinhoretto

Piscadelas de caveiras: a escatologia do Jardim das Flores por John C. Dawsey

Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

Revista Sociologias

Sumário
Sociologias n.19 Porto Alegre jan./jun. 2008

Editorial
Dossiê conhecimentos, redes e sociedade
· Conhecimentos e redes: produção e apropriação de C&T
Baumgarten, Maíra; Marques, Ivan da Costa

· Criatividade, comunicação e produção do saber
Sales, Arnaud

· O fascínio dos cientistas colombianos pela engenharia genética de plantas
Holmes, Christina

· Sem patente não há genérico: acesso farmacêutico e políticas de cópia
Hayden, Cori

· Cotidianos de Manguinhos
Cukierman, Henrique Luiz; Teixeira, Márcia de Oliveira

· Tecnociência, democracia e os desafios éticos das biotecnologias no Brasil
Silveira, Cristiane Amaro da; Almeida, Jalcione

· Capital social e a privatização do conhecimento
Saul, Renato P.

Artigos
· (Re)Pensar a cultura e a formação em contexto de trabalho: tendências, perspectivas e possibilidades de articulação
Torres, Leonor Maria de Lima

· Reestruturação industrial, desemprego e autogestão: as cooperativas do Vale do Sinos
Lima, Jacob Carlos

Interfaces
· A mídia e o declínio da confiança na política
Miguel, Luis Felipe

· The construction of epistemologically based socio-educational objects
Massé Narváez, Carlos E.

Entrevista
· Entrevista com Michel Callon: dos estudos de laboratório aos estudos de coletivos heterogêneos, passando pelos gerenciamentos econômicos
Callon, Michel

Resenhas
· A conjugação entre sustentabilidade, consumo e atores sociais
Ruscheinsky, Aloísio

· A ética hacker do trabalho: rompendo com a jaula de ferro?
Mocelin, Daniel Gustavo

ANPOCS: 32o. Encontro

32º Encontro Anual 2008



Inscrições Abertas

As inscrições gerais para o 32º Encontro Anual já estão abertas. Inscreva-se! (Clique para fazer sua inscrição ou seu Login)

Trabalhos Aprovados
Veja os Grupos de Trabalho e Mesas Redondas aprovados. (Os participantes desses GTs e MRs devem concluir suas inscrições).

Conferencistas
Veja a lista dos Conferencistas confirmados.


Memória:
-----------
31º Encontro Anual, 2007
30º Encontro Anual, 2006
29º Encontro Anual, 2005
28º Encontro Anual, 2004
27º Encontro Anual, 2003
26º Encontro Anual, 2002
25º Encontro Anual, 2001
24º Encontro Anual, 2000
23º Encontro Anual, 1999
22º Encontro Anual, 1998

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

DEMASIADAMENTE PÓS-HUMANO

Entrevista com Laymert Garcia dos Santos

Esta entrevista foi realizada pelo grupo de pesquisa “Conhecimento, Tecnologia e Mercado” (CteMe), em 30 de março de 2005. Participaram da conversa os seguintes pesquisadores: Cecilia Diaz-Isenrath, Emerson Freire, Luiz Cintra, Márcio Barreto, Marta Kanashiro, Martha Celia Ramírez-Gálvez, Osvaldo López-Ruiz e Pedro Ferreira.

Na entrevista a seguir, o sociólogo Laymert Garcia dos Santos discorre sobre sua trajetória intelectual. A ênfase recai sobre um dos pontos de maior interesse do pesquisador: a questão do “futuro do humano”, vista a partir de suas implicações filosóficas e do debate acerca da “politização da tecnologia” que ela suscita. A conversa foi conduzida pelos integrantes do grupo “Conhecimento, Tecnologia e Mercado” (CteMe), coordenado por ele.


Quando se trata de refletir sobre as implicações sociológicas da tecnologia, Laymert Garcia dos Santos é um dos poucos pensadores brasileiros a ir além da mera repetição daquilo que já se sabe sobre o assunto. A radicalidade de suas idéias e a maneira direta com que as expõe em debates, palestras, aulas e entrevistas muitas vezes fazem com que seja classificado como “catastrofista” — uma injustiça, dada a evidente positividade de seu pensamento. Suas idéias têm o poder de incomodar, principalmente pela sua capacidade de apontar tendências cuja existência muitos prefeririam não admitir. E se o incômodo é o primeiro passo para a mudança, talvez seja justamente por isso que Laymert vem alcançando um reconhecimento cada vez maior por parte de jovens pesquisadores no Brasil e no exterior.

Voz ativa em discussões que extrapolam os limites da universidade, Laymert dedica-se a temas que vão das recombinações artísticas dos irmãos Chapman à jurisprudência brasileira sobre biotecnologia e propriedade intelectual. Como problemática transversal, tem sempre a tecnologia e suas implicações sociais, foco que se formou durante seus estudos de pós-graduação na França nos anos 1970, quando freqüentou cursos de Michel Foucault e Gilles Deleuze e entrou em contato com a obra de Gilbert Simondon. “Sempre tive grande dificuldade para dizer o que fazia”, diz Laymert. “Um belo dia, quando cheguei na Inglaterra como professor visitante em 1992, [o sociólogo] Hermínio Martins falou: ‘o que você faz é Sociologia da Tecnologia’. A partir daí, adotei este rótulo.”

Além de lecionar, como professor titular, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, Laymert desenvolve uma pesquisa sem paralelos no Brasil sobre aquilo que ele chamaria de “o futuro do humano”. Parte dessa pesquisa já pode ser conhecida nos últimos capítulos de seu mais recente livro, Politizar as novas tecnologias: O impacto sócio-técnico da informação digital e genética (São Paulo: Editora 34, 2003), que traz também uma boa amostra de sua produção ao longo da década de 1990.

Laymert concedeu esta entrevista ao grupo de pesquisa “Conhecimento, Tecnologia e Mercado”, CTeMe, que ele lidera, logo após retornar de um período de seis meses na Europa, onde deu continuidade a sua pesquisa atual e dividiu, com Cynthia Morrison-Bell, a curadoria da exposição coletiva Citizens, em Londres.

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para ler o texto completo

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Sociologia clássica: Durkheim, Marx e Weber

texto completo publicado por http://sociologia.incubadora.fapesp.br/portal


A importância dos fundadores das ciências sociais para a constituição deste campo científico justifica a necessidade de uma aula introdutória sobre estes clássicos.

MARX

Karl Marx (1818-1883) talvez seja o mais conhecido cientista social e também o menos conhecido. Explico melhor: é difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar de Marx, mas também é difícil encontrar pessoas que conheçam bem as idéias deste autor. Talvez porque o pensamento de Marx seja muito aberto, o que possibilita leituras diferenciadas. Mas o pensamento de Marx é mais bem aproveitado pelos economistas que pelos cientistas sociais. Isso porque para Marx, a mercadoria é a base de todas as relações sociais, e este é o ponto-chave para a compreensão de suas idéias. Para ele, há uma tendência histórica das relações sociais se mercantilizarem: tudo vira mercadoria.

Provavelmente Marx tenha dado tanta importância à economia porque estivesse presenciando as mudanças sociais provocadas pela Revolução Industrial, principalmente nas relações de trabalho. A partir da centralidade da mercadoria no pensamento de Marx, podemos entender alguns de seus conceitos mais importantes. Comecemos pela divisão do trabalho.

DIVISÃO DO TRABALHO

Evolutivamente, a divisão do trabalho é a segunda maneira de construir relações sociais de produção, que são formas como as sociedades se organizam para suprir suas necessidades. A primeira é a cooperação. Falar em divisão do trabalho em Marx é falar em formas de propriedade. Isso porque a divisão do trabalho se dá entre quem concede e quem executa o trabalho, entre os donos dos meios de produção e os donos da força de trabalho.

CLASSES

Da divisão do trabalho surgem as classes. Para Marx, as classes não são constituídas de agregados de indivíduos, mas são definidas estruturalmente: as classes são efeito da estrutura. No modo de produção antigo as classes eram a dos patrícios e dos escravos; no modo de produção feudal, havia senhores e servos; no modo de produção capitalista, burgueses e operários. Há sempre uma relação de oposição entre duas classes, de modo que uma não existe sem a outra. Esta oposição ele chamou de luta de classes.

LUTA DE CLASSES

A luta de classes, assim como as classes decorrem da divisão do trabalho. Nas sociedades modernas a luta de classes se dá entre capitalistas ou burgueses (donos dos meios de produção) e trabalhadores ou proletariado (donos da força de trabalho). O trabalho nas sociedades modernas é denunciado por Marx pelo seu caráter exploratório do trabalhador. No entanto, Marx vê uma solução para esta relação exploratória: a revolução que seria feita pelo proletariado. No entanto, a revolução do proletariado contra o modo de produção capitalista só não acontece, segundo Marx, devido à alienação.

FETICHISMO

A separação da mercadoria produzida pelo trabalhador dele mesmo esconde o caráter social do trabalho. O fetichismo se dá quando a relação entre os valores aparece como algo natural, independente dos homens que os criaram. A criatura se desgarra do criador. O fetichismo incapacita o homem de enxergar o que há por trás das relações sociais. E o maior exemplo de fetichismo da mercadoria é a mais-valia.

MAIS-VALIA

A mais-valia é o excedente de trabalho não pago, não incluído no salário do trabalhador. É a mais-valia que forma o lucro que será investido para aumentar o capital.

ALIENAÇÃO

A alienação faz com que o trabalhador não se reconheça no produto de seu trabalho, não percebendo a sua condição de explorado. A solução para o problema da alienação passa por uma luta política do próprio proletariado e não pela educação.

IDEOLOGIA

Como dissemos, as classes dominantes controlam os meios de produção. A infraestrutura (conhecimentos, fábricas, sementes, tecnologia etc.), que está nas mãos da classe dominante, determina a superestrutura (Estado, Direito, Religião, Cultura etc.). A superestrutura é uma construção ideológica que serve para garantir o poder da classe dominante, mantendo a classe trabalhadora alienada.

PRINCIPAIS CRÍTICAS SOCIOLÓGICAS A MARX

Marx não reconhece outros fatores de formação social além dos econômicos. Para ele, a economia determina todas as relações sociais, o que foi amplamente apropriado pelos economistas. Existem critérios não econômicos que as idéias de Marx não dão conta na hora de analisar sociologicamente uma sociedade. Por exemplo, Marx desconsidera a divisão técnica do trabalho. Para ele, a divisão do trabalho obedece apenas fatores econômicos.

As idéias de Marx aproximam-se mais de uma filosofia moralista que de uma produção científica. Talvez este seja o motivo de tento sucesso das idéias de Marx durante o século XX, o que deu origem ao marxismo, que são interpretações dos escritos de Marx. A verdade em Marx é uma verdade absoluta, moralista, doutrinária. Isso dá à teoria marxista um caráter ilustrativo: como a “verdade” já foi descoberta (por Marx), cabia aos cientistas ilustrar com exemplos a ‘verdade’ enunciada por Marx. Por muito tempo os cientistas sociais aplicaram a teoria de Marx.

DURKHEIM

David Émile Durkheim nasceu em 15 de abril de 1858, na França, e morreu em 1917. O princípio sociológico de Durkheim está fundado no social. Para ele, o que não advém do social não tem importância para a sociologia que ele pretende fazer. Isso porque a sociedade é a pré-condição de ser humano: é na sociedade que o indivíduo. A vida social unifica, estrutura e gera significados para a existência humana. Ele é determinista, dando absoluto predomínio ao social tanto no plano causal quanto no plano das ações.

O social existe no plano ideal. Para Durkheim, é no social que está tudo aquilo que a gente sabe, que os antepassados descobriram e que as futuras gerações irão descobrir. O social é universal e, por isso, objetivo e racional.

REPRESENTAÇÕES COLETIVAS

O social cria representações coletivas, que são atitudes comuns de uma determinada coletividade em uma determinada época. Esta representação coletiva independe dos indivíduos, pois o indivíduo não tem poder criativo. Em Durkheim, o social que determina o indivíduo. É como se cada indivíduo trouxesse em si a marca do social, e esta marca determinasse suas ações.

SOLIDARIEDADE
A comunhão dessas representações coletivas é por ele chamado de solidariedade. Não se trata de um sentimento de bondade, mas de uma comunhão de idéias. A solidariedade é o partilhar de um mesmo conjunto de regras.

Há dois tipos de solidariedades, a mecânica ou por similitudes e a orgânica ou devida à divisão do trabalho. A evolução de uma sociedade faz com que ela passe da solidariedade mecânica, em que o partilhar das regras é feita de maneira coerciva, para a solidariedade orgânica, em que o partilhar das regras sociais é feita a partir da diferenciação feita pela divisão do trabalho social. Mas até em sociedades mais complexas ainda há espaço para a solidariedade mecânica. É o caso do direito penal: o direito penal é um resíduo de solidariedade mecânica ainda existente nas sociedades complexas.

DIVISÃO DO TRABALHO E FUNCIONALISMO

A divisão do trabalho, para ele, pode ser: normal ou geral e anômica ou patológica. Normal é o que se repete de maneira igual, o que funciona espontaneamente, gerando a solidariedade necessária à evolução do social. O patológico é aquilo que difere do normal. Durkheim acha que as coisas tendem à normalidade: até o patológico caminha para a normalidade.

Durkheim compara a sociedade a um corpo humano, onde o Estado é o cérebro, elaborando representações coletivas que aperfeiçoem a solidariedade. Para ele, todas as partes do corpo tem uma função, não havendo hierarquias entre as diferentes partes. É uma sociedade harmônica.

Até o crime é considerado normal porque não há sociedade onde não haja crime e também tem uma função social, a função de manter e gerar uma coesão social. Quando acontece um crime, a consciência coletiva é atingida: o social é agredido pelo indivíduo. Um ato não ofende a consciência coletiva porque seja criminoso, mas é criminoso porque ofende a consciência coletiva. No entanto, o Estado pode fortalecer a consciência coletiva através da punição do criminoso. É através da punição do criminoso que a consciência coletiva mantém a sua vitalidade. A pena impede um crescimento exagerado do crime, não permitindo que ele se torne patológico.

Numa visão durkheimiana, a impunidade, não-punição do crime pelo Estado, enfraquece a consciência coletiva, os laços de solidariedade, gerando um estado de anomia. Quando o patológico prevalece sobre o normal, há uma desestruturação social. O estado de anomia é uma situação limite e sem função na sociedade.

PRINCIPAIS CRÍTICAS SOCIOLÓGICAS A DURKHEIM

Durkheim dá excessiva ênfase ao social, o que acaba retirando a responsabilidade do indivíduo em suas ações. Há pouco espaço para o indivíduo decidir, escolher, no pensamento durkheimiano. Até a idéia de indivíduo, segundo ele, é construída pelo social.

Suas teorias sofrem muita influencia do positivismo e do evolucionismo social.

WEBER

Max Weber nasceu em Erfurt, em 21 de abril de 1864, e faleceu em junho de 1920. Weber vive numa época em que as idéias de Freud impactavam as ciências sociais e em que os valores do individualismo moderno começavam a se consolidar. A grande inovação que Weber trouxe para a sociologia foi o individualismo metodológico. Para ele, o indivíduo escolhe ser o que é, embora as escolhas sejam limitadas pelo grau de conhecimento do indivíduo e pelas oportunidades oferecidas pela sociedade. O indivíduo é levado a escolher em todo instante, o que faz da vida uma constante possibilidade de mudança. O indivíduo escolhe em meio aos embates da vida social. Essa idéia faz com que o sentido da vida, da história, seja dado pelo próprio indivíduo. Os processos não têm sentido neles mesmos, mas são os indivíduos que dão sentido aos processos.

AÇÃO SOCIAL

A sociedade em Weber é vista como um conjunto de esferas autônomas que dão sentido às ações individuais. Mas só o indivíduo é capaz de realizar ações sociais. A ação social é uma ação cujo sentido é orientado para o outro. Um conjunto de ações não é necessariamente ação social. Para que haja uma ação social, o sentido da ação deve ser orientada para o outro. Seja esta ação para o ‘bem’ ou o ‘mal’ do outro. A ação social não implica uma reciprocidade de sentidos: o outro pode até não saber da intenção do agente.

Para Weber há quatro tipos de ação social: ação social tradicional, ação social afetiva, ação social racional quanto aos valores, ação social racional quanto aos fins.

Ação social tradicional é aquela que o indivíduo toma de maneira automática, sem pensar para realiza-la.

Ação social afetiva implica uma maior participação do agente, mas são respostas mais emocionais que racionais. Ex.: relações familiares. Segundo Weber, estas duas primeiras ações sociais não interessam à sociologia.

Ação racional com relação a valores é aquela em que o sociólogo consegue construir uma racionalidade a partir dos valores presentes na sociedade. Esta ação social requer uma ética da convicção, um senso de missão que o indivíduo precisa cumprir em função dos valores que ele preza.

Ação racional com relação aos fins é aquela em que o indivíduo escolhe levando em consideração os fins que ele pretende atingir e os meios disponíveis para isso. A pessoa avalia se a ação que ela quer realizar vale a pena, tendo em vista as dificuldades que ele precisará enfrentar em decorrência de sua ação. Requer uma ética de responsabilidade do indivíduo por seus atos.

RELAÇÃO SOCIAL

Até agora falamos de ação social em Weber, que em diferente de relação social. Enquanto o conhecimento do outro das intenções do agente não importa para a caracterização da ação social, a relação social é o sentido compartilhado da ação. Relação social não é o encontro de pessoas, mas a consciência de ambas do sentido da ação. A relação social é sempre probabilística, porque ela se fundamenta na probabilidade de ocorrer determinado evento, o que inclui oportunidade e risco. A vida social é totalmente instável: a única coisa estável da vida social é a possibilidade (e necessidade) de escolha. Não há determinismos sobre a o que será a sociedade. Por isso, as análises sociológicas são baseadas em probabilidades e não em verdades.

DOMINAÇÃO

Como já dissemos a vida social para Weber é uma luta constante. Por conta disso, ele não vê possibilidade de relação social sem dominação. Todas as esferas da ação humana estão marcadas por algum tipo de dominação. Não existe e nem vai existir sociedade sem dominação, porque a dominação é condição de ser da sociedade. A dominação faz com que o indivíduo obedeça a uma ordem acreditando que está realizando sua própria vontade. O indivíduo conforma-se a um padrão por sua própria escolha e acha que está tomando uma decisão própria.

Existem pelo menos três tipos de dominação legítima: legitimação tradicional, legitimação carismática e legitimação racional. Para Weber a burocracia é a mais bem acabada forma de dominação legítima e racional. A burocracia baseia-se na crença na legalidade ou racionalidade de uma ordem. A burocracia mais eficaz de exercer a dominação. E é uma conseqüência do processo de racionalização da vida social moderna, sendo responsável pelo gerenciamento concentrado dos meios de administração da sociedade. A burocracia é uma forma de organizar o trabalho, é um padrão de regras para organizar o trabalho em sociedades complexas. A modernização para ele é o processo de passagem de uma perspectiva mais tradicional do mundo (em que as coisas são dadas) para uma perspectiva mais organizada (onde as coisas são elaboradas, construídas). Mas para Weber, só o herói individual (o líder carismático) pode alterar o rumo da história. Mesmo que imediatamente, uma vez que para Weber toda legitimação carismática tende a tornar-se legitimação tradicional.

ESFERAS SOCIAIS

A dominação pode ser exercida em diferentes esferas da vida social. As “esferas” são mais analítico-teóricas que reais, e são criadas pela divisão social do trabalho. Uma esfera não determina uma outra esfera, mas elas trocam influências entre si. As esferas são autônomas, mas não independentes. A esfera é o lugar de luta por um tipo de sentido para as relações sociais. Classes, estamentos e partidos são fenômenos da disputa de poder nas esferas econômica, social e política, respectivamente.

CLASSE E ESTAMENTO

Vamos falar um pouco mais de classe e estamento em Weber, até para diferencia-lo de Marx. Classe para Weber é o conjunto de pessoas que tem a mesma posição diante do mercado. Há dois tipos básicos de classe, as que têm algum tipo de bem e as que não tem algum tipo de bem. Mas as classes também se diferenciam pela qualidade dos bens possuídos. As classes, como já dissemos estão ligadas à esfera econômica da vida social. Para Weber, a esfera econômica não tem capacidade de produzir um sentimento de pertencimento que seja capaz de gerar uma comunidade.

Estamento está ligado à esfera social, que é capaz de gerar comunidade. Estamento é um grupo social cuja característica principal é a consciência do sentido de pertencimento ao grupo. A luta por uma identidade social é o que caracteriza um estamento. A luta na esfera social é para saber qual estamento vai dominar. As profissões podem ser analisadas como estamentos.

PRINCIPAIS CRÍTICAS SOCIOLÓGICAS A WEBER

Weber supervaloriza o indivíduo, tornando demasiada a cobrança sobre suas escolhas e conformidades. Talvez nem tudo seja escolhido individualmente.

Ele ao mesmo tempo em que vê na burocracia forma mais acabada de dominação legítima, acha que a burocracia fortalece a democracia por causa de sua impessoalidade. Talvez ele não tenha tido tempo para perceber que a burocracia tem a possibilidade de ser um instrumento de democratização, mas que freqüentemente funciona de maneira contrária, servindo apenas como instrumento de dominação.

RELEVÂNCIA ATUAL DE MARX, DURKHEIM E WEBER PARA A SOCIOLOGIA

A principal importância de Marx para hoje é que podemos dizer que ele ao enunciar que tudo vira mercadoria, acertou (ou contribuiu para isso). A prevalência da economia hoje em dia, representada pela força dos próprios economistas na sociedade (funcionando como gurus), dá uma idéia da importância de Marx para as ciências sociais. Outro aspecto importante é que o uso da teoria marxista hoje não precisa se preocupar com a análise da realidade política, uma vez que o socialismo real chegou ao fim.

A importância de Durkheim é que não se pode fazer sociologia da educação sem Durkheim, principalmente na análise de processos de socialização a partir da escola. Durkheim fornece instrumentos para entender os processos. O conceito de anomia, por exemplo, é básico para entender mudanças que impliquem alterações nas relações sociais, tais como modernização da sociedade, urbanização, industrialização, padrões morais e construção/alteração de identidades coletivas.

Weber talvez seja o mais atual dos autores clássicos da sociologia com importantes contribuições para a teoria antropológica, devido ao seu individualismo metodológico, para a sociologia das profissões, para a análise das relações de dominação e dos processos de racionalização das sociedades. Mas sem dúvida a grande contribuição de Weber foi a necessidade de pesquisas empíricas para afirmar alguma coisa científica. Isso porque sua teoria não aceita determinismos.

EUA insistem em manter sua atitude de Estado fora da lei


NOAM CHOMSKY conversa com Wajahat Ali - Counterpunch

Os assuntos internacionais são, em grande medida, como os assuntos da máfia: um padrinho não pode tolerar a desobediência, nem sequer a de um pequeno lojista que se recuse a pagar pela proteção, porque a maçã podre poderia fazer apodrecer o barril inteiro. A comparação é de Noam Chomsky, ao analisar a política externa dos EUA, em entrevista ao ensaísta Wajahat Ali.


“Neste momento, estou completamente sobrecarregado por demandas, mas realmente gostaria de realizar esta entrevista, só que não sei quando poderá ser”, respondeu Noam Chomsky - 79 anos, prolífico autor, lingüista, acadêmico e ativista – na primeira de muitas mensagens trocadas ao longo de seis meses. É o mais citado e, provavelmente, o mais controverso intelectual vivo, segundo Global Intellectuals Poll. Embora os meios de comunicação dominantes lhe neguem espaço, o New York Times garante que Chomsky continue sendo um dos intelectuais vivos mais influentes e mais solicitados por estudantes, universidades, ativistas, simpósios acadêmicos e, inclusive, por líderes mundiais, como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Meu primeiro encontro com este ativista, acadêmico, polemista e de má reputação para alguns remonta ao ano 2002, quando fui moderador em uma sessão de perguntas e respostas na qual ele participou, celebrada no meu antigo programa na Universidade da Califórnia (Berkeley). (O encontro seria, posteriormente, incluído no livro Power and Terror: Post 9-11 Talks and Interviews). Antes do programa, tivemos uma longa conversa de uma hora e fiquei impressionado com sua inesgotável memória, sua falta de afetação e o brilhante resumo de dados, nomes e datas que ele utilizou em resposta às minhas intermináveis perguntas. Quando perguntei qual era sua faceta dominante, se acadêmico ou ativista, respondeu que nenhuma das duas de modo exclusivo, e disse que a dissidência sempre tem sido parte dele, desde o primeiro artigo que escreveu, aos dez anos de idade, no qual condenava o triunfo do fascismo durante a Guerra Civil espanhola. Apesar de que a arrogância de muitos intelectuais e acadêmicos só é superada por sua própria insegurança, o que dá como resultado um elitismo frio e egoísta, sempre vi em Chomsky alguém generoso, adaptável e disposto a compartilhar seu tempo e seus conhecimentos.

Assim, não foi surpresa que, depois de seis meses de mensagens eletrônicas, o professor Chomsky pudesse dispor de um pouco de tempo para responder minhas perguntas, segundo suas próprias palavras. Nesta entrevista exclusiva, Chomsky discute acerca da ameaça do Irã, dos paralelismos e diferenças entre Vietnã e Iraque, dos meios de comunicação nos Estados Unidos, de seus críticos e detratores, Paquistão e a negação do título de professor para Norman Finkelstein.

Ali: Em 1969 o senhor publicou seu primeiro trabalho político de importância, "American Power and the New Mandarins" (O poder norte-americano e os novos mandarins) uma acerada crítica à intervenção dos Estados Unidos no Vietnã e no Sudeste asiático. Como sabe, muitos estabelecem paralelos entre a atual guerra do Iraque e a do Vietnã. Outros, é claro, rejeitam esta comparação. O senhor, como pessoa com grande experiência no estudo de ambos os momentos, tão significativos historicamente, considera que esse paralelismo é prematuro e ousado? Ou acredita que podem ser estabelecidas semelhanças importantes entre ambas as guerras no que se refere à intervenção norte-americana?

Chomsky: A primeira semelhança guarda relação com o modo de considerar as guerras nos Estados Unidos e no Ocidente em geral. Marginais a parte, as opiniões oscilam entre o que se conhece como falcões e pombas. Em ambos os casos, os falcões garantiam que uma intervenção maior dos Estados Unidos poderia levar à vitória. As pombas, também nos dois casos, participam da opinião expressa por Barack Obama sobre o Iraque (trata-se de uma gafe estratégica, que está saindo cara demais para nós) ou pelo destacado historiador de centro-esquerda e assessor de Kennedy, Arthur Schlesinger, em 1966, quando o Vietnã já aparecia como uma aventura custosa demais para os Estados Unidos. Schlesinger afirmou na época: todos rezamos para que os falcões tenham razão e que um número maior de tropas nos traga a vitória. E, se no fim, resultar que temos razão – dizia – todos elogiaremos a sabedoria e a liderança do governo norte-americano, que conseguiu uma vitória deixando para atrás esse trágico país destripado e devastado pelas bombas, queimado pelo napalm e desertificado pela defoliação química, um país de ruína e escombros, com seu tecido político e institucional totalmente destruído.

Mas Schlesinger não acreditava que a escalada teria sucesso, e sim, pelo contrário, que poderia nos custar caro demais, o que parecia indicar a necessidade de pensar novamente toda a estratégia. A posição das pombas em relação ao Iraque é bastante parecida. Se, por exemplo, o general Petraeus pudesse conseguir algo parecido ao que Putin conseguiu na Chechênia, seria elevado aos altares, com o aplauso das pombas progressistas.

É quase inconcebível, dentro dos rumos estabelecidos da cultura intelectual ocidental, a possibilidade de se fazer uma crítica da guerra baseada em questões de princípio, ou seja, o tipo de crítica que fazemos, reflexiva e adequadamente, quando algum país inimigo comete uma agressão: por exemplo, quando a Rússia invadiu a Checoslováquia, o Afeganistão ou a Chechênia. Não criticamos estas ações por razões de custo, erro, por terem sido uma grande gafe ou por estancamento. Em vez disso, condenamos essas ações como horrendos crimes de guerra, tanto se elas são bem-sucedidas quanto se não.

Em si mesmas, as guerras do Vietnã e do Iraque, contudo, são muito diferentes por seus motivos e caráter. O Vietnã não tinha, por si mesmo, nenhum valor para os Estados Unidos, embora o presidente Eisenhower tenha tentado conseguir apoio para a sua violação dos acordos de paz de Genebra recorrendo aos recursos, de estanho e borracha disponíveis naquele país. Se o Vietnã tivesse desaparecido do mapa, afundado no mar, isso não teria significado grande coisa para os planejadores norte-americanos. O Iraque é uma coisa totalmente diferente. Tem, provavelmente, as segundas maiores reservas petrolíferas do mundo, com a particularidade extra de que são de fácil extração. E, além disso, está exatamente no centro geográfico mundial dos maiores recursos energéticos mundiais, facilmente exploráveis.

No caso do Vietnã, a preocupação consistia em que um desenvolvimento independente e bem-sucedido desse país podia ser um vírus que poderia estender o contágio para outros, se aceitarmos a retórica de Henry Kissinger em relação ao socialismo democrático no Chile. Este raciocínio tem sido o motivo primordial de intervenção militar e de subversão em todo o mundo a partir da II Guerra Mundial, é a versão racional da teoria do dominó. O contágio consiste em que outros que sofrem dos mesmos males possam ver em um desenvolvimento independente e exitoso um modelo, e possam tentar seguir por esta mesma via, o que provocaria a erosão do sistema de dominação. Por isso, até o mais pequeno e débil país representa uma ameaça extrema à ordem.

Os assuntos internacionais são, em grande medida, como os assuntos da máfia: um Padrinho não pode tolerar a desobediência, nem sequer a de um pequeno lojista que se recuse a pagar pela proteção, porque a maçã podre poderia fazer apodrecer o barril inteiro, na terminologia dos planejadores norte-americanos: aqui, a podridão consiste em um desenvolvimento independente exitoso, à margem do controle norte-americano. Temia-se que o Vietnã pudesse infectar seus vizinhos, como a Indonésia, com seus ricos recursos. E que o Japão – que o destacado historiador da Ásia John Dower chamava de superdominó– pudesse acomodar-se a uma Ásia Oriental independente, transformando-se, com isso, em seu centro industrial e tecnológico, tornando realidade a nova ordem que o Japão fascista havia tentado construir pela força durante a II Guerra Mundial. Os Estados Unidos não estavam dispostos a perder a fase do Pacífico da II Guerra Mundial apenas poucos anos depois.

Quando se teme que o contágio possa se estender é preciso destruir o vírus e inocular aqueles que poderiam se infectar. E esta operação foi feita. O Vietnã sofreu uma quase total destruição (assim como toda a Indochina, quando os EUA estenderam sua guerra para o Laos e a Camboja). No fim de 1960, era evidente que nunca poderia ser modelo para ninguém e que a mera sobrevivência seria obra da providência. E a região foi inoculada por meio da imposição de tiranos assassinos: Suharto na Indonésia, Marcos nas Filipinas, etc. O golpe militar de Suharto, em 1965, foi particularmente importante, e foi descrito com toda precisão: o New York Times afirmou que se tratava de um “assassinato massivo horripilante” –e também como “um raio de luz na Ásia”–, em momentos em que o exército do ditador assassinava um número estimado em um milhão de pessoas, em sua maior parte camponeses sem terras; destruía o único partido político popular de massas do país, um partido dos pobres, como foi descrito pelo especialista australiano Harold Crouch, e abria a porta dos ricos recursos do país para sua exploração pelas corporações ocidentais. A euforia nem sequer foi dissimulada. Retrospectivamente, o assessor de segurança nacional de Kennedy e Johnson, McGeorge Bundy, afirmou que os Estados Unidos poderiam ter posto fim à guerra do Vietnã em 1965, depois desta grande vitória da liberdade e da justiça.

Os Estados Unidos conseguiram uma significativa vitória na Indochina, apesar de não terem conseguido seu objetivo máximo: instalar um Estado satélite. Por conseguinte, para a consciência imperial a guerra do Vietnã foi um desastre.

Como já disse, o Iraque é outra coisa. É valioso demais para ser destruído. É fundamental que permaneça sob o controle dos EUA, na medida de tudo o que for possível, em forma de Estado satélite obediente que abrigue importantes bases militares norte-americanas. Sempre foi evidente que este era o objetivo primordial da invasão, mas agora isso não precisa sequer ser discutido. Estes planos foram explicitados pelo governo Bush com sua declaração de novembro de 2007 e por afirmações posteriores, acompanhadas da descarada exigência de que as grandes corporações norte-americanas do petróleo tenham acesso privilegiado às enormes reservas de cru do Iraque.

Ali: Parece que o público norte-americano finalmente descobriu, depois de 60 anos, a existência do Paquistão. O general Musharraf é sincero quando afirma querer reconstituir a democracia em seu país? Concretamente, por que os Estados Unidos confiam em Musharraf mais do que em outros rivais potenciais, como Bhutto e Zardari, do PPP, Nawaaz Sharif, etc., em sua guerra contra o terrorismo e sua busca e captura de Bin Laden?

Chomsky: Não devemos perder tempo valorando as intenções de Musharraf de reconstituir a democracia. Os Estados Unidos apoiaram-no tanto tempo quanto possível, do mesmo modo que apoiaram outros tiranos, como Zia ul-Haq. A escolha de um determinado aliado é feita seguindo um critério muito simples: trata-se de buscar o satélite mais leal, aquele que mais nos garanta que vai obedecer ordens. Apesar de alguma exceção ocasional, a uniformidade é impressionante.

Ali: Recentemente, um relatório dos serviços secretos dos EUA afirmava que o Irã tinha finalizado com sucesso um programa de armas nucleares há quatro anos. O Irã afirma que, na verdade, nunca teve um programa deste tipo. Contudo, o presidente Bush, o presidente israelense Olmert e altos cargos de Washington garantem que o Irã continua sendo uma grande ameaça e que persegue a obtenção de armas nucleares. São sustentáveis estas opiniões dos EUA e Israel? E se não são, qual é a razão da retórica de enfrentamento com o Irã, e de que modo favorece a política exterior dos EUA na região do Oriente Próximo?

Chomsky: Estas afirmações deveriam ser avaliadas pela Agência Internacional de Energia Atômica. Eu, é claro, não tenho nenhum conhecimento especial. Não seria tão surpreendente que descobrissem que o Irã tem algum tipo de programa de armas nucleares, junto, talvez, com planos de emergência. As razões foram expostas por um dos mais importantes historiadores de Israel, Martin van Creveld, quando disse que o Irã estaria completamente louco se não desenvolvesse uma arma de dissuasão nuclear nas atuais circunstâncias: com as forças hostis de uma superpotência violenta em duas de suas fronteiras e uma potência regional hostil (Israel) que dispõe de centenas de armas nucleares clamando por uma mudança de regime no Irã. Contudo, as provas disponíveis indicam que se esse país já teve um programa assim, ele foi encerrado há alguns anos.

Da perspectiva norte-americana, o Irã cometeu um grave crime em 1979. Como é sabido, em 1953, os Estados Unidos e o Reino Unido desmantelaram a democracia parlamentar iraniana e instalaram um brutal tirano, o Xá, que foi um baluarte do controle norte-americano na rica região petrolífera até 1979, quando foi deposto após um levantamento popular. Tratava-se de um caso bastante parecido ao da derrocada do ditador Batista em Cuba, em 1959, e de outros atos de desafio exitoso aos princípios de Washington, segundo o termo cunhado em seus documentos internos. O Padrinho não pode tolerar um desafio exitoso. É uma ameaça grande demais ao que chamam de estabilidade, ou seja, à obediência aos senhores.

A independência iraniana não é um problema menor. Ameaça o controle norte-americano de um dos butins mais valiosos do mundo, o petróleo do Oriente Próximo. Como conseqüência, desde 1979 os Estados Unidos têm sido duramente hostis com o Irã. Washington respaldou o feroz e mortífero ataque de Sadam Hussein contra o Irã e, inclusive, uma vez terminada a guerra continuou apoiando esse aliado até o ponto de convidar engenheiros nucleares iraquianos para receberem formação avançada para o desenvolvimento de armas nucleares, em 1989. Mais tarde, promulgou graves sanções contra o Irã, ao mesmo tempo que lançava freqüentes ameaças de atacar esse país e derrocar seu governo.

E assim até hoje. Atualmente, 15 de junho de 2008, a agência de notícias Reuters informa o seguinte: “Os analistas estimam que se forem oferecidas ao Irã garantias de segurança –uma idéia lançada pela Rússia– seria possível sair do ponto morto atual, considerando que estas garantias constituem o objetivo fundamental do Irã, dada a política de Bush de mudança de regime referente a esse país. Mas os Estados Unidos afirmaram, no mês passado, que as grandes potências não tinham planos de compromisso em matéria de segurança com Teerã.”

Em poucas palavras, os EUA insistem em manter sua atitude de Estado fora da lei, rejeitando os princípios fundamentais do Direito Internacional, entre outros a Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força nos assuntos internacionais. Bush conta com o apoio dos dois principais candidatos presidenciais de 2008 e com o das elites dos EUA e da Europa, ainda que não com o da opinião pública norte-americana, que apóia com grande margem a diplomacia e opõe-se às ameaças de guerra. Mas a opinião pública é, em grande medida, irrelevante na hora de elaborar as políticas, e não apenas neste caso.

A classe política, em toda sua amplitude e com raras exceções, está comprometida com a manutenção do controle norte-americano dos principais recursos energéticos do mundo, e com o castigo dos desafios exitosos. Por conseguinte, os EUA têm feito grandes esforços para mobilizar uma aliança contra o Irã entre os Estados sunitas da região, embora sem muito sucesso. As duas viagens de Bush para a Arábia Saudita, no início de 2008, foram, neste sentido, fracassos sem paliativos.

A imprensa saudita, normalmente muito comedida com os visitantes importantes, condenou as políticas propostas por Bush e pela secretária de Estado, Condoleezza Rice, como “não uma diplomacia em busca da paz, mas uma loucura em busca da guerra.” As monarquias do Golfo Pérsico não são amigas do Irã, mas aparentemente preferem acomodar-se e não entrar em confronto, o que constitui um duro golpe para as políticas norte-americanas. Washington está diante de problemas similares no Iraque e no Líbano. Em um segundo plano, existe uma preocupação mais profunda: que os países produtores de energia da região possam voltar-se para o Leste e, inclusive, que sigam o exemplo do Irã de estabelecer vínculos com a Organização de Cooperação de Shanghai (1), na qual a Índia, Paquistão e Irã participam como observadores, participação que foi negada a Washington.

Ali: O conflito entre sunitas e xiitas tem se agravado sensivelmente nestes últimos anos, especialmente no Iraque, devido à crescente insurgência e à guerra civil desatada pela queda de Sadam Hussein e o vazio de poder que seguiu. O senhor acha que esse conflito sunita-xiita pode se estender para todo o Oriente Próximo. Em caso afirmativo, como isso ocorreria, especialmente em países como Iraque, Irã e Líbano e em relação à guerra contra o terrorismo? Vamos testemunhar mais atos terroristas, mais extremismo e mais antiamericanismo, ou será que este “divide e vencerás” pode ajudar as forças norte-americanas e as políticas estrangeiras a pacificarem a região?

Chomsky: Segundo estudos sobre a opinião pública iraquiana, realizados pelo Pentágono, os conflitos sectários do Iraque não foram causados “pela queda de Sadam Hussein e o vazio de poder que seguiu”, senão pela agressão norte-americana. Se você me permite citar o resumo, publicado pelo Washington Post, dos documentos do Pentágono publicados em dezembro de 2007, ele afirma: “Iraquianos de todos os grupos sectários e étnicos acreditam que a invasão militar norte-americana é a raiz primordial das violentas diferenças entre eles e consideram que a saída das forças de ocupação é fundamental para a reconciliação nacional.”

Como eu já disse, os Estados Unidos não tiveram muito sucesso em sua inspiração de um conflito regional entre sunitas e xiitas, mesmo que as tensões entre eles sejam bem reais e inquietantes. A invasão do Iraque potencializou os atos de terrorismo muito mais do que teria sido possível pensar de antemão, ao ponto de que algumas estimativas, como as realizadas pelos especialistas em terrorismo Peter Bergen e Paul Cruickshank após a análise de cifras semi-oficiais, chegam a considerar que se multiplicaram por sete. O que vai acontecer a seguir depende, em larga medida, de quais sejam as políticas norte-americanas, apesar de que também há muitos fatores internos próprios desta complexa região.

Ali: No dia 20 de setembro de 2006, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, promoveu seu livro "Hegemony or Survival: America's Quest for Global Dominance" (2) na Assembléia Geral das Nações Unidas, e elogiou o senhor por demostrar que o maior perigo para a paz mundial, nestes momentos, são os Estados Unidos. Imediatamente, houve um grande alvoroço nos meios de comunicação. O senhor, por sua vez, recusou os pedidos de entrevistas porque, na sua opinião, os entrevistadores nem sequer haviam se incomodado em ler o livro e discutir seu conteúdo e estavam, em vez disso, à procura de sensacionalismo. Existe nos meios de comunicação norte-americanos um lugar para o jornalismo informativo e educativo e para a informação contrastada que não esteja tingida de sensacionalismo ou retórica promocional? O surgimento da Internet –os blogs, YouTube, os webzines, etc.– permite contrabalançar o que o senhor tem chamado de fabricação do consenso, consistente em que organismos poderosos, como as grandes corporações e o governo norte-americano, forneçam à mídia e ao público informação preparada, propaganda e meias-verdades adequadas?

Chomsky: Se eu tivesse que me limitar a um único jornal, escolheria o New York Times, apesar de já ter escrito centenas de páginas nas quais documento em detalhe suas falsas representações, distorções e cruciais omissões à serviço do poder. E faria essa escolha por sua importância e recursos superiores aos demais. Aprende-se muito com uma leitura atenta e crítica dos meios de comunicação dominantes, apesar de que existem outras fontes também valiosas. A Internet permite ter acesso a uma grande variedade de informação, opinião e interpretação. Mas, como qualquer outra fonte, é útil só com a condição de que seja utilizada de um modo discriminado e reflexivo. Os melhores biólogos não são aqueles que leram mais publicações técnicas de seu âmbito, mas aqueles que dispõem de um marco de compreensão que lhes permite selecionar o que pode ser significativo, mesmo que de resto um determinado documento tenha pouco valor. Este mesmo tipo de discernimento é necessário no estudo dos assuntos humanos.

Ali: Seus críticos –e há muitos deles– afirmam que sua retórica e ideologia parece um disco riscado: uma interminável ladainha e um monte de ataques repetitivos à política exterior norte-americana e às suas ações militares. Como o senhor responde aos críticos que afirmam que sua descrição da política exterior dos EUA é simplista e cínica? Os Estados Unidos são, realmente, um império do mal? Não existem casos em que a intervenção norte-americana ou a ajuda desse país tenha respondido a critérios altruístas, seguindo os ideais da Constituição?

Chomsky: Este tipo de crítica de que você fala tem sido feita aos dissidentes de quase todas as sociedades na história da Humanidade, ou seja, não se deve dar a mínima para elas. Se os críticos têm argumentos e provas, vou estudá-los com prazer, neste âmbito assim como em qualquer outro. Quando o único que há são crises de birra do tipo que você menciona, podemos descartá-las como novos exemplos daquilo que o criador da teoria das relações internacionais realistas, Hans Morgenthau, chamou “nossa conformista obediência àqueles que têm o poder”, referindo-se aos intelectuais norte-americanos –e aos ocidentais em geral–, apesar das eventuais excepções. Eu não respondo a estas acusações de que descrevo os Estados Unidos como um império do mal, porque esta acusação é uma montagem infantil feita por apologistas desesperados do poder estatal.

De fato, costumo insistir em que os Estados Unidos são como qualquer outro sistema de poder. É verdade que esta afirmação é intolerável para nossos nacionalistas, que insistem no excepcionalismo dos EUA, assim como é para os líderes políticos e as classes intelectuais em outros Estados poderosos, passados e presentes, com muita freqüência. Quanto ao caráter genuinamente altruísta das nossas intervenções, é difícil encontrar exemplos no passado, tal como a pesquisa histórica demonstra, mesmo que, é claro, cada intervenção seja apresentada como altruísta por parte de seus perpetradores, por mais monstruosas que sejam. A imagem é mais ambígua no que se refere à ajuda, mas não muito diferente quando observamos em detalhe, e se ajusta também a um universal histórico, como eu tenho dito.

Ali: Na sua opinião, o veto que a Universidade DePaul impôs à nomeação do professor Norman Finkelstein, devido à sua mordaz crítica e refutação do livro de Alan Dershowitz, "Case for Israel" é indicativa do clima de probidade e integridade intelectual nos Estados Unidos? Será que é um aviso aos acadêmicos e intelectuais que não se ajustam às consignas e questionam abertamente a ideologia que defendem os poderosos grupos de interesses e os lobbies? Ou será que é só um incidente isolado, que não tem outras implicações em relação ao ambiente intelectual pós 11 de setembro?

Chomsky: O comportamento da Universidade DePaul ao rejeitar a recomendação dos professores para a nomeação de Finkelstein foi, sem dúvida, deplorável, mas este caso não pode ser generalizado. Tem características específicas, especialmente o papel do desesperado e fanático professor da Faculdade de Direito de Harvard, Alan Dershowitz. Finkelstein demonstrou com impecável rigor acadêmico que Dershowitz é um difamador, um mentiroso e um vulgar apologista dos crimes do Estado que defende. Em um primeiro momento, Dershowitz removeu céu e terra para impedir a publicação do escrito de Finkelstein; após fracassar nisso, lançou uma cruzada histérica para tentar suprimir seu conteúdo. Não é um idiota e sabe que não pode responder em termos de fatos e argumentos, ou seja que recorreu àquilo que é habitual nele: uma seqüência de ataques e insultos e uma extraordinária campanha de intimidação, à qual, finalmente, sucumbiu a direção da Universidade, aparentemente por temor a uma eventual mobilização de seus patrocinadores.

Esta depravada atuação tem sido analisada com muito detalhe em publicações apropriadas, como Chronicle of Higher Education , e não vou me estender mais aqui.

É verdade que há iniciativas importantes para impedir um debate honesto e independente dos assuntos do Oriente Próximo, especialmente os relativos a Israel. Não obstante, este é um caso especial, que não tem nenhuma relação com o ambiente intelectual posterior ao 11 de setembro.

* Wajahat Ali é cidadão paquistanês e norte-americano, muçulmano, autor teatral, ensaísta, humorista e advogado, cuja obra "The Domestic Crusaders" (Os cruzados do interior) é a primeira obra teatral que trata dos muçulmanos norte-americanos no período posterior ao 11 de Setembro.

Notas:

(1) A Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) é um organismo intergovernamental fundado em 14 de Junho de 2001 pela R.P. da China, Rússia, Kazaquistão, Kirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão, dedicado a assuntos de cooperação econômica, cultural e de segurança. (N. do T.)

(2) Hegemonia ou sobrevivência : Estats Units a la recerca do domini global, Editorial Empuries, 2004 (em catalão); Hegemonia ou sobrevivência: a estratégia imperialista dos Estados Unidos, Edições B, 2005 (em espanhol).

Tradução para o espanhol para Rebelión por S. Seguí
Tradução para o Português: Naila Freitas/Verso Tradutores

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